segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Toque pessoal faz instituição de crédito prosperar

Julia Werdigier, Varsóvia (Polônia)
Quando Ewa Rachwal faz uma visita a domicílio a um dos seus 150 clientes, é recebida mais como a amiga que não se vê há muito tempo do que alguém que vem, para receber o pagamento semanal de juros de um empréstimo.Rachwal é uma entre os mais de 28.000 agentes autônomos de uma empresa britânica, a International Personal Finance, que presta serviço como instituição de crédito para pessoas de origens modestas no Centro e no Leste da Europa, com pouco ou nenhum acesso aos bancos convencionais. Ao contrário da maior parte das principais instituições financeiras, a empresa está prosperando em meio à turbulência global no mercado de crédito que deixou muitos credores com prejuízos imensos e baixas contábeis.Embora o endividamento possa ser um conceito mal recebido nos Estados Unidos e no Oeste da Europa hoje em dia, parece mais atraente para as pessoas no Leste da Europa e de todas outras regiões que estão começando a se firmar na economia de consumo e anseiam por uma vida melhor.A International Personal Finance, ou IPF, encontrou meios de explorar esse mercado de uma forma antiga, ao oferecer o crédito diretamente e depois mantendo uma atenção personalizada nos clientes. Seus agentes visitam as pessoas em suas casas para avaliar melhor a capacidade de crédito delas, antes de oferecer pequenos empréstimos em dinheiro vivo no valor médio de US$ 500, para qualquer coisa, desde o conserto de uma máquina de lavar roupa a férias familiares. O pagamento de juros de cerca de 20% atraiu críticas de grupos de consumidores e reguladores, mas a companhia insiste que tais taxas são necessárias para pagar pelo serviço a domicílio e cobrir o seu risco. O lucro da IPF aumentou 40% este ano e suas ações, negociadas na Bolsa de Londres, subiram 52%, numa época em que os valores de muitos bancos americanos e do Oeste da Europa estão em declínio. Christopher Rodrigues, o presidente executivo da companhia, chama a IPF de 'Avon do setor de serviços financeiros', referindo-se à empresa global de vendas diretas de produtos de beleza.Rodrigues admite que a empresa não seja imune às incertezas da economia que atormentam outras instituições bancárias, mas o fato de evitar complexos modelos financeiros e o contato próximo com seus 1,94 milhão de clientes lhe permite minimizar o risco. Embora as despesas com baixas contábeis, representando 22% da receita, sejam substanciais, ela acompanha seus empréstimos cuidadosamente e evita surpresas vindas de perdas imensas e inesperadas.Balazs Pap, diretor da IPF na Polônia, explica que a abordagem dos negócios foi além das verificações de crédito com base em computadores da qual dependem os bancos maiores. Se "alguém lhe diz pelo telefone que tem um filho," diz ele, "e depois você anda pela casa e vê três pares de sapatos de tamanhos diferentes," o agente já sabe que algo está errado.Rachwal, que trabalha oferecendo empréstimos da IPF há oito anos, disse que quando visitou um cliente pela primeira vez, prestou muita atenção ao apartamento e tentou descobrir o máximo que podia, além das perguntas de rotina a respeito do nível de renda ou se a família possuía um telefone.Cada agente é responsável por uma pequena área da cidade que não abrange mais de 2,6 quilômetros quadrados, e é geralmente bem conhecido na comunidade. "As pessoas me cumprimentam nas ruas, conheço seus filhos e famílias," disse Rachwal. "Nem mesmo os membros da família os visitam com tanta freqüência quanto eu."O crescimento econômico no Centro e no Leste da Europa também ajudou a empresa a prosperar.Ao contrário do Oeste da Europa, onde o crescimento começou a se desacelerar drasticamente este ano e alguns países provavelmente venham a enfrentar uma recessão, as economias do Leste europeu devem manter uma taxa de crescimento médio em torno de 4% este ano, disse Neil Shearing, economista na Capital Economics de Londres. Essa é uma boa notícia para a IPF, que também opera na República Tcheca, Romênia, Eslováquia, Hungria e México e pretende se expandir para Rússia, Ucrânia e Índia. Com a expansão das economias, os clientes ganham mais e estão mais dispostos e em melhores condições de tomar emprestadas somas maiores.Mas mesmo no Leste da Europa a inflação começou a subir e haverá risco para os negócios da IPF se o desemprego também aumentar. A empresa diz que está preparada, caso as economias comecem a enfrentar dificuldades."Isso exigirá uma reação imediata de nossa parte," diz Pap, da unidade polonesa. "Precisaremos encerrar os acordos de empréstimos mais arriscados e reforçar nossas exigências para fornecer crédito. Mas devido ao contato direto com os clientes, podemos ver muito rapidamente as mudanças na situação deles."A empresa tem raízes que vêm de 1880, quando Joshua Waddilove, um filantropo, começou a fornecer crédito para famílias de trabalhadores britânicos. A empresa da família vendeu ações em uma oferta pública inicial em 1962 e se expandiu para outros produtos bancários, incluindo cartões de crédito.No ano passado, a controladora, Provident Financial, criou uma subsidiária para suas operações no exterior, a IPF.Agora, o lucro na IPF cresce de forma rápida, principalmente porque ela opera em uma região onde os mercados de crédito ainda estão relativamente pouco desenvolvidos. Na Polônia, 40% da população têm uma conta bancária, em comparação com 90% na Grã-Bretanha. A dívida das famílias aqui é 15,6% do produto interno bruto, em comparação com 98,7% nos Estados Unidos, 111% na Grã-Bretanha e 59,7% entre os países que adotam o euro.Para muitas das pessoas nos países que a IPF atende agora e as que espera alcançar no futuro, tomar emprestado de um banco pode ser mais barato, mas eles não têm essa opção. Hanna Krzysiewska-Rybinska, especialista em dietética num hospital, que vive com seu marido e sua mãe de 90 anos, disse que precisava do dinheiro rapidamente para ajudar o filho, motorista de táxi, comprar um carro novo."Ele não pode levantar um empréstimo por conta própria porque ele e a esposa acabaram de comprar uma casa nova e já têm uma grande hipoteca," diz Krzysiewska-Rybinska."Com o banco, eu preciso pagar em uma data fixa. Aqui eu tenho a flexibilidade de pagar depois."Krzysiewska-Rybinska tomou emprestados 5.000 zlotys poloneses (US$ 2.225), por dois anos. Ela agora terá que reembolsar 95 zlotys (US$ 42) por semana, o que significa que depois de dois anos ela terá reembolsado 9.880 zlotys (US$ 4.396). A taxa de juros é excepcionalmente elevada, mas o empréstimo é bem superior à média concedida pelo IPF. Os clientes da IPF na Polônia têm uma renda mensal média de 2.500 zlotys (US$ 1.112).Rodrigues disse que as taxas de juros da IPF não são muito mais elevadas que as comuns a vários cartões de crédito nos Estados Unidos e Europa, e ajudam a cobrir o risco de fornecer empréstimos a pessoas com um histórico de crédito limitado, ou mesmo sem qualquer um, e a pagar pela rede de agentes.A remuneração aos seus funcionários é estruturada de forma a evitar a concessão antiética de empréstimos, ele afirma. Os funcionários recebem apenas comissões, a maior parte das quais são concedidas com a cobrança de um pagamento de empréstimo e não quando um novo cliente se inscreve. Tradução: Cláudia Bozzo
Visite o site do The New York Times

domingo, 24 de agosto de 2008

Lançamento : Dicionário Saber Juridico.


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Dinamarca


24/08/2008

Porque os dinamarqueses são o povo mais feliz do mundo

Por Matt Mabe

Há três anos, se você perguntasse a uma pessoa na Dinamarca o segredo da felicidade, você provavelmente receberia de volta um olhar intrigado. A mesma questão hoje, todavia, seria provavelmente respondida por um riso conhecedor e uma entre várias explicações.É preciso se acostumar com o fato de reconhecido como o povo mais feliz do mundo.Desde 2006, A Dinamarca, um país homogêneo de 5 milhões de pessoas na tempestuosa costa norte da Europa, foi agraciada com o título de lugar mais feliz da terra por duas pesquisas diferentes. As descobertas dos estudos invalidaram a percepção internacional de longa data de que a Dinamarca era um estranho e frio exportador de laticínios com uma grande taxa de suicídio, transformando o país em um modelo de harmonia social que está prosperando na era da globalização.A nova e improvável reputação do país —e a significativa atenção da mídia que isso engendrou— pode ter proporcionado um efeito ainda mais profundo nos próprios dinamarqueses ao desencadear um debate nacional sobre como eles vivem suas vidas. "Isso nos deu uma chance para refletir sobre como somos um país realmente equilibrado", diz Dorte Kiilerich, diretora administrativa do Visite a Dinamarca, a organização oficial de turismo do país.No início de 2006, a Dinamarca era a mesma de tempos atrás: um país tranqüilo, estável, mais conhecido por ser o berço de Hans Christian Andersen, dos Jardins Tivoli, e cenário do Hamlet de Shakespeare, do que por ser um epicentro de felicidade. O turismo estava em queda há uma década, e havia uma controvérsia internacional contra o país por causa de uma série de charges sobre o profeta Mohammed, publicadas por um jornal dinamarquês meses antes.Rede de segurança socialEntão em julho daquele ano, um pesquisador da Universidade de Leicester, na Inglaterra, divulgou um ranking dos países mais felizes do mundo depois de analisar dados de diversas fontes. O relatório concluía que os fatores econômicos relacionados com o sistema de saúde, padrões de vida e acesso à educação básica eram características determinantes da atitude geral dos países.A Dinamarca, com seus sistema de saúde gratuito, um dos PIBs per capita mais altos do mundo, e escolas de qualidade, veio em primeiro lugar.As notícias se espalharam rapidamente. Niels Martiny, estudante de antropologia social de 26 anos de idade na Universidade de Aarhus na segunda maior cidade da Dinamarca passou o ano passado no Peru fazendo pesquisa. Mesmo lá, as notícias sobre a pesquisa haviam chegado. "Eles estavam bastante surpresos", diz Martiny rindo. "Eles tinham uma idéia a respeito do povo nórdico ser muito reservado e sério."Os estrangeiros não foram os únicos a coçar a cabeça com os resultados. Os dinamarqueses ficaram igualmente confusos. "Muitos amigos meus ficaram surpresos", diz Martiny, que considera a si mesmo bastante feliz com sua própria vida, mas achou que o estudo pode ter cometido alguns erros. Os dinamarqueses, diz ele, tendem a não expressar suas emoções como pessoas de outras culturas fazem.Atingindo o equilíbrio corretoMas os resultados não foram apenas sorte. No começo desse verão, o instituto de Pesquisa de Valores Mundiais, em Estocolmo, que usa uma metodologia bem diferente, também descobriu que os dinamarqueses são as pessoas mais contentes do mundo. O estudo concluiu que os parâmetros mais seguros para medir o bem-estar de um país são a liberdade de escolha sobre como levar a vida, o encorajamento à igualdade de gêneros, e a tolerância às minorias. Novamente, em todos os aspectos, a Dinamarca levou o primeiro prêmio.O que a Dinamarca tem que nós não conseguimos compreender?Atingir o equilíbrio certo é provavelmente o que mais destaca o país, sugere Kiilerich, do Visite a Dinamarca. A felicidade na maior parte das sociedades nórdicas, que ficaram em boa colocação nas listas dos países mais felizes em ambos os estudos, é conseqüência de uma combinação inefável de força econômica e programas sociais. O modelo da Dinamarca se baseia em impostos altos e numa agressiva redistribuição de riqueza —uma maldição para muitos americanos defensores do mercado-livre— que resulta numa ampla variedade de serviços sociais como a saúde, aposentadorias, e escolas públicas de qualidade. E mesmo assim, o país conseguiu fazer com que esse modelo funcionasse sem impedir o crescimento econômico ou os incentivos para crescer. "A Dinamarca tem uma cabeça e um coração", diz Kiilerich.As fortes redes de segurança social que sustentam os cidadãos dinamarqueses do nascimento até a morte também são abertas para os estrangeiros. Kate Vial, uma americana de 55 anos que morou e trabalhou na Dinamarca por mais de 30 anos, desistiu de várias oportunidades para voltar aos EUA ao longo dos anos, preferindo criar seus três filhos na Dinamarca. Vial sabe que nunca será rica, mas disse que valoriza a família, a possibilidade de viajar, e a simples segurança econômica acima de tudo. "Eu basicamente escolhi um estilo de vida mais simples, em que eu posso ir a todo lugar de bicicleta e onde não tenho que ganhar muito dinheiro para sobreviver", diz.Algumas pessoas atribuem a atitude que prevalece entre os dinamarqueses como algo menos tangível, chamado de hygge (pronuncia-se "ruga"). Os dinamarqueses dizem que é uma palavra difícil de traduzir —e de compreender— mas é descrita como um sentimento acolhedor, de convívio, que envolve fortes laços familiares. "A essência disso é que você não precisa fazer nada além de entregar-se", diz Vial. "É uma combinação de relaxar, comer, beber, celebrar, passar tempo com a família."Quaisquer que sejam os motivos para a felicidade aparente da Dinamarca, os dois estudos indicam claramente que o país deve estar fazendo algo certo. Força econômica e sistema de apoio social à parte, Kiilerich diz que há algo no sangue do país que os outros países escandinavos não têm. "Nossos vizinhos nos adoram por causa disso, mas eles simplesmente não conseguem entender", diz. Tradução: Eloise De Vylder Visite o site do Der Spiegel

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Estado.


22/08/2008

Intervenção do Estado volta ao centro da vida econômica

John Plender
Durante a melhor parte de um período de três décadas, elaboradores de políticas no mundo desenvolvido seguiram a linha de Ronald Reagan e Margaret Thatcher ao procurarem fazer com que as fronteiras do Estado retrocedessem. O mantra triplo "privatização, liberalização e desregulamentação" imperou.Mas os problemas que tiveram início nos mercados de crédito um ano atrás lançam agora uma sombra sobre a forte orientação de mercado das políticas ocidentais. Após o colapso de bancos como o Bear Stearns nos Estados Unidos e o Northern Rock no Reino Unido, e tendo como pano de fundo as atuais dúvidas quanto à viabilidade de gigantes do setor de hipotecas como o Fannie Mae e o Freddie Mac, a abordagem anglo-americana do capitalismo parece ter fracassado estrondosamente. Sendo assim, estaria o Estado mais intrusivo prestes a ensaiar um retorno, reduzindo a esfera do livre mercado, de forma semelhante à resposta governamental à crise da década de 1930? Qualquer comparação com o período deflacionário entre as duas guerras mundiais não se aplica, até porque os elaboradores de políticas dos Estados Unidos e da Europa conhecem as lições daquela era. Conscientes de que ações preventivas podem evitar uma depressão, os governos e os bancos centrais já estão respondendo ao colapso do crédito e à debilidade dos mercados imobiliários. Esta crise não deverá se agravar ao ponto de vermos filas de cidadãos famintos em busca de sopa gratuita. Nos Estados Unidos, a política monetária tem sido substancialmente abrandada, enquanto o ativismo fiscal de estilo keynesiano voltou à moda. Um reforço orçamentário de US$ 150 bilhões neste ano de eleição presidencial é provavelmente apenas um começo. As portas dos cofres deverão ser novamente abertas em resposta aos pedidos intensos de reduções de impostos e de aumento de investimentos em infra-estrutura. Tendo em vista a desaceleração econômica global, é quase certo que haverá mais ajuda financeira governamental nas economias avançadas até o ponto em que as regras fiscais elaboradas para restringir o tamanho do Estado entrem em colapso. A crise do crédito já provocou uma expansão involuntária do papel do Estado na forma das nacionalizações bancárias como a do Northern Rock, onde a estatização foi abraçada com relutância por um governo trabalhista. O Tesouro dos Estados Unidos poderá ver-se em uma posição similar em relação ao Fannie Mae e ao Freddie Mac. Uma questão interessante é saber se tal intervenção governamental ad hoc será repetida fora do setor financeiro. O colapso de um grande fabricante de motores em Detroit, algo que os mercados de dívidas estão esperando, poderá fazer com que muito em breve a expediência política entre me conflito com a probidade fiscal. Em uma recente defesa enérgica do capitalismo financeiro, Raghuram Rajan e Luigi Zingales argumentam que os livres mercados estão vulneráveis a ataques em épocas de crise porque se apóiam em bases frágeis, e a sua existência depende da boa vontade dos políticos.* A amplitude desta vulnerabilidade e da reação resultante após o estouro da bolha de crédito dependerá da gravidade da crise. Para muita gente ela já parece ser grave, ainda que nenhuma grande economia ocidental enquadre-se na definição técnica de uma recessão - dois trimestres sucessivos de crescimento negativo. A grande maioria das pessoas nos países de língua inglesa suportaram rendimentos estagnados e um alto nível de desigualdade salarial durante muitos anos, em grande parte porque ainda eram capazes de aumentar os seus padrões de vida ao tomar dinheiro emprestado para a aquisição de imóveis em um ambiente seguro, no qual o preço das moradias aumentava. Com o colapso do crédito, a aquisição de empréstimos ficou subitamente mais difícil e os valores das casas estão despencando, enquanto a alta dos preços dos alimentos e da energia empurram o custo de vida para cima. Neste ínterim, as críticas ao sistema financeiro crescem em altura e em rispidez, e elas não são feitas apenas por populistas vulgares. Em um discurso altamente crítico proferido no Clube Econômico de Nova York em abril deste ano, Paul Vocker, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), afirmou: "Resumindo, o novo e brilhante sistema financeiro - apesar de todos os participantes talentosos e de todas as suas gordas recompensas - fracassou no teste do mercado".Neste cenário é compreensível que haja ressentimento quanto ao fato de banqueiros caprichosos estarem sendo resgatados. Este tipo de socialismo para os ricos dificilmente agradará os eleitores nos países mais seriamente atingidos pela crise. Isso sugere que a política fiscal poderá ser revertida para os moldes mais redistributivos da era anterior a Reagan e a Thatcher, com o retorno dos ricos ao raio de vigilância dos políticos. Quer os Estados Unidos elejam ou não Barack Obama presidente em novembro, a reforma fiscal proposta pelo candidato democrata, que atingirá com dureza as famílias com rendimento anual superior a US$ 250 mil, pode ser um indicador do que está por vir no universo dos países desenvolvidos. O cenário poderá também estar montado para que os políticos recuperem o poder até então concedido ao setor privado ou a agências independentes do Estado. O maior campo de batalha estará localizado no território dos bancos centrais. Antes da crise dos mercados de crédito, havia um amplo consenso de que a atuação independente dos bancos centrais contribuiu significativamente para "a grande moderação" dos últimos anos, na qual prevaleceu uma mistura benigna de inflação baixa e crescimento elevado. No momento atual não existe moderação, a estabilidade anterior revelou-se desestabilizante. Assim, os diretores de bancos centrais que irão se reunir neste final de semana em Jackson Hole, em Wyoming, são acusados de não terem conseguido entender plenamente as modificações estruturais no sistema financeiro e de não terem agido para conter a expansão da bolha de crédito. A independência dos bancos centrais parece ser mais vulnerável nos Estados Unidos, onde o Fed não goza daquela mesma proteção da qual o Banco Central Europeu desfruta devido ao Tratado de Maastricht, que seria quase impossível desfazer. Desde a operação de resgate do Bear Stearns em março último, uma rede generalizada de segurança foi estendida para os bancos de investimentos. Ao fazer tal coisa, o Fed rompeu com uma antiga convenção segundo a qual, em épocas de crise, os bancos centrais só devem emprestar com as maiores taxas de juros caso existam boas garantias, já que o valor e a liquidez de grande parte das garantias nos casos de hipotecas são questionáveis. O risco é que se volte sempre à estaca zero, já que a ação tomada sob os poderes emergenciais "temporários" é tida no mercado como uma garantia de ações similares quando uma nova turbulência emergir. O Fed poderia também tornar-se vulnerável a pressões para alocar créditos com o objetivo de atender aos desejos dos políticos. Conforme disse Volcker em abril: "Devido à aparente necessidade, poderes amplos foram exercidos de uma forma que não é nem natural nem confortável para um banco central. Como guardião do dinheiro do país, o Federal Reserve tem a responsabilidade básica de proteger o seu valor e de resistir às pressões crônicas que conduzem à inflação. Considerando que lhe foi concedido um alto grau de independência para exercer esta responsabilidade, o Federal Reserve deveria ser desvinculado - e ser visto como desvinculado - de decisões que pareçam favorecer instituições particulares ou parcelas politicamente sensíveis do eleitorado". Uma ameaça mais direta aos bancos centrais é oriunda do atual ambiente de estagflação. A inflação elevada faz com que seja difícil para os elaboradores de políticas governamentais reduzir as taxas de juros em resposta à desaceleração econômica, o que não contribuiu em nada para torná-los populares. Em tais circunstâncias a amplitude dos erros de políticas governamentais também é elevada. Tampouco, caso a recente reversão dos preços da energia e das commodities resultar em uma inflação mais baixa no ano que vem, a situação dos diretores de bancos centrais será necessariamente mais confortável. A meta de estabilidade de preços pode exigir que eles contrabalancem a política fiscal mais branda adotada para os governos a fim de conter a estagnação. Isso poderia fazer com que os políticos solicitassem que a política monetária não ficasse mais na mão de autoridades que não são escolhidas pelo voto.Se a repolitização insinuante da política monetária parece plausível - e a política monetária nunca foi totalmente imune à pressão política -, o retorno do "grande governo" é uma outra questão. Nos Estados Unidos, na Europa e no Japão os níveis elevados da dívida e os empecilhos políticos ao aumento do fardo fiscal conspiram contra um aumento significativo da proporção do produto interno bruto abocanhada pelo setor público.De toda forma, há um paradoxo inerente ao longo período de privatização e liberalização: a redução ínfima das fronteiras do Estado. Projeções da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento revelam que de 1990 a 2009 os gastos governamentais como percentagem do produto interno bruto dos países membros deverão sofrer uma redução desprezível de 40,9% para 40,8%. Entre outras coisas, isso reflete a maneira segundo a qual a demanda por serviços públicos como educação e saúde aumenta inexoravelmente à medida que os países ficam mais ricos. O envelhecimento das populações contribuirá para as pressões sobre os orçamentos governamentais. Mas o fator que mais conspira contra o retorno do dirigismo integral é o clima intelectual. Na década de 1930, a economia planificada da União Soviética apresentou um elevado crescimento econômico enquanto o mercado livre dos Estados Unidos foi destroçado pela Grande Depressão. Isso pavimentou o caminho para um papel mais intervencionista dos governos no Ocidente, incluindo nacionalizações e uma crescente rede de previdência social. Muitos europeus do período pós-guerra assumiram que a presença do setor estatal nos escalões mais elevados da economia seria mais eficiente do que a alternativa do mercado. Eles também acreditaram, segundo frase do político britânico Douglas (mais tarde, Lorde) Jay, que "o homem em Whitehall sabia melhor das coisas". Hoje em dia a situação é outra. A teoria da escolha pública, com a sua visão dos políticos e burocratas como "maximizadores da utilidade pessoal", influenciou fortemente o pensamento econômico. Os erros e escândalos que ocorrem periodicamente nas democracias maduras deixaram os eleitores desiludidos com as elites políticas. Enquanto isso, o setor estatal não conseguiu cumprir as suas promessas no Ocidente, e fracassou completamente na União Soviética. Assim, atualmente a política intervencionista gera um ceticismo generalizado. Somente no setor bancário, graças aos fracassos recorrentes e catastróficos do gerenciamento de riscos, o setor estatal parece contar com mais simpatias do que o privado. Dito isto, a Guarda Platônica está fazendo um retorno modesto nas teorias dos acadêmicos norte-americanos Cass Sunstein e Richard Thaler, que atualmente atraem Obama e David Cameron, o líder dos conservadores britânicos. Eles defendem o "paternalismo libertário", segundo o qual os governos estimulam os cidadãos a comportarem-se em sintonia com as metas de politicas públicas. Um exemplo clássico de estímulo útil é a inclusão automática das pessoas em esquemas de poupança, proporcionando a elas, ao mesmo tempo, a opção de sair, o que teve o efeito de elevar drasticamente a participação. Este tipo de tática de estímulos conta com atrações óbvias para os políticos. O seu custo é baixo e ela não padece do problema do tipo "vencedores e perdedores", porque os perdedores, sendo vítimas da inércia, podem não perceber perda nenhuma. Nos países nos quais as eleições precisam ser ganhas a partir do centro do espectro político, a combinação de metas públicas e escolhas sintonizadas com o mercado poderia atrair tanto a direita quanto a esquerda. Mas, no final, tudo se resume a tomar conta do eleitor, e o sucesso dependeria da sabedoria e da integridade daqueles que escolhem as metas de políticas monetárias. De qualquer forma, isto equivaleria a um pequeno retorno do Estado.O maior problema é o cabo de guerra pós-bolha entre a intervenção do governo e a regulação derivada das preocupações do mercado. Esta é, de acordo com George Soros, o famoso gerente de fundos de hedge, a pior crise financeira desde a década de 1930. Mas hoje em dia seria impossível criar legislações relativas aos bancos e às securities do tipo que os parlamentares introduziram naquela época, porque atualmente os mercados financeiros são globais. A extrema complexidade desses mercados também transforma a tarefa dos legisladores em um pesadelo. Um problema identificado por Rajan e Zingales é o fato de "um mercado verdadeiramente livre e competitivo ocupar um espaço intermediário muito delicado entre a ausência de regras e a presença de regras sufocantes. Isto porque o espaço intermediário é tão estreito que o capitalismo na sua melhor forma é bastante instável".A bolha de crédito não foi um simples fracasso do mercado, mas sim um fracasso de liderança empresarial, governança corporativa e gerenciamento de riscos, exacerbado pelas estruturas distorcidas de incentivos existentes nos bancos. Estas são também questões difíceis de se resolver com legislações. E não se sabe se existe vontade política para montar uma vasta rede de controles em torno do sistema financeiro, especialmente ao se considerar a preocupação política nos Estados Unidos quanto à competitividade internacional dos mercados e das transações norte-americanas. O que está claro é que o Comitê de Basiléia, que estabelece a estrutura regulatória para as operações bancárias em todo o mundo, será beneficiado em termos de liquidez. As atividades comerciais controladas pelos próprios bancos terão que ser apoiadas por capitais bem mais regulatórios. As agências de rating que se mostrarem incapazes de avaliar os riscos em instrumentos estruturados complexos estarão sujeitas a controles mais rígidos. E serão impostas maiores restrições no setor de financiamentos, bem como maior fiscalização.O risco é que a lei das conseqüências involuntárias se aplique. Afinal, foi o regime de Basiléia de capital de risco avaliado que, no princípio, fez com que os bancos transferissem os bens das folhas de balanço, e foi aí que o mercado de crédito começou a desmoronar. Uma nova onda de inovações financeiras para a facilitação das decisões regulatórias pode estar vindo por aí. A fé no poder auto-equilibrante do mercado está, sem dúvida, em baixa. Assim, embora o New Deal - ou políticas do tipo "Grande Sociedade" possam estar fora de questão, existe o potencial para que o Estado imponha responsabilidades políticas aos tecnocratas encarregados da elaboração de políticas, sujeite os banqueiros rebeldes a mais regulamentações e amplie o setor estatal em resposta ao fracasso de corporações politicamente sensíveis. No conflito perene entre política e mercados, não há dúvida de que a política é, neste momento, mais popular.* "Saving Capitalism From The Capitalists", Crown Business(2003) ("Salvando o Capitalismo dos Capitalistas", Editora Crown Business, 2003). Tradução: UOL

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O príncipe Charles e o especulador


Marc Roche

Em Londres

Seu brasão negro ornado de 15 moedas de ouro e ladeado por duas aves com uma pluma no bico é testemunha. O príncipe Charles é sem dúvida o herdeiro do trono da Inglaterra, mas também é o 24º duque da Cornualha. E com esse título - o menos conhecido - uma das personalidades mais ricas do reino. Recentemente, para surpresa geral, o filho mais velho de Elizabeth II se lançou na especulação imobiliária britânica.Até o monarquista mais dedicado aos Windsor deve estar desconcertado com a recente criação da Telesma, um fundo de investimentos em projetos imobiliários do qual o príncipe controla um terço dos ativos. Uma de suas associações filantrópicas, The Foundation for the Built Environnment [Fundação para o Ambiente Construído], age como consultora dessa estrutura dirigida pelo dono da Land Securities, a maior promotora imobiliária britânica cotada na Bolsa.A missão do fundo é investir em projetos de desenvolvimento sustentável no Reino Unido. O Crédit Suisse está encarregado de levantar o resto do capital junto a grandes fortunas do Oriente Médio que desejam colocar seus petrodólares em propriedades com a etiqueta "Charles Inc"."A existência da monarquia é fundamentalmente antidemocrática, um fator de divisão social em um ambiente feudal": para Stephen Haseler, chefe autoproclamado do movimento republicano, essa iniciativa salienta a ânsia de lucros da realeza. Jorge VI, o pai da rainha, um dia chamou a família real de "a Firma". A expressão é mais que nunca atual. E o príncipe Charles vestiu sem dificuldade os hábitos de presidente dessa empresa florescente.Os lucros brutos do ducado da Cornualha superaram os 16 milhões de libras (20,2 milhões de euros) no exercício 2007-2008. Esse desempenho é tanto o resultado do sucesso da linha de alimentos biológicos Duchy Originals quanto de investimentos imobiliários. Durante estes últimos sete anos a compra e venda de terrenos, casas, escritórios ou espaços comerciais trouxeram 43 milhões de libras ao tesouro principesco. Elizabeth II também não fica atrás, como demonstra o aumento dos lucros do Crown Estate, que administra os enormes ativos imobiliários da coroa.Mas a constituição da Telesma ocorre no pior momento. A combinação de crise de crédito, desmoronamento do setor imobiliário e desaceleração econômica obriga dezenas de milhares de famílias a abandonar suas moradias a seus credores. Esse país de pequenos proprietários está em plena depressão. Quanto ao imobiliário comercial, desmorona.Para os críticos dessa aventura na selva da especulação, o príncipe de Gales responde que, ao contrário de seus pares promotores imobiliários bilionários - os Westminster, de Walden ou Buccleuch -, ele é apenas um milionário de segunda categoria. Aliás, as ruínas inabitáveis do castelo de Tintagel são a única residência oficial na Cornualha. Lá onde nasceu, segundo a lenda, o rei Arthur. Nobody is perfect. Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Visite o site do Le Monde

sábado, 16 de agosto de 2008

Comércio Justo.


Por que esta manga é mais cara?
Um ilustre desconhecido por aqui, o dito "comércio justo" começa a pingar nas gôndolas do país
Eduardo Knapp
A manga Tommy normal é vendida pelo produtor a R$0,50 o quilo, e o consumidor final paga R$1,65; no "comércio justo", o produtor vende a fruta por R$1,22, que chegaria ao consumidor por R$ 4,03 o quilo

CYRUS AFSHARDA REPORTAGEM LOCAL Você topa pagar um pouco mais por um produto feito sem danos à natureza ou exploração desumana do trabalho, sabendo que sua compra ajuda a desenvolver comunidades pobres? Milhares de consumidores no mundo topam. São a base do dito "comércio justo".Muito mais conhecido na Europa, o "comércio justo", ou "solidário", ou ainda "ético" é um movimento social e um sistema internacional de comércio, que busca atenuar desigualdades nos países pobres, por meio da venda de produtos feitos em padrões sustentáveis.No Brasil, produtos com o certificado do comércio justo ainda são raros em supermercados. Mas isso pode mudar a partir desta semana, quando serão lançadas as normas nacionais desse comércio.Por aqui, o sistema começou a ganhar algum espaço no final dos anos 90 e só se tornou mais estruturado a partir de 2003. A proposta para normatizar o comércio justo no Brasil, que será levada agora, no dia 19, a um encontro internacional sobre o tema, no Rio, dá a ONGs e empresas a competência de certificar produtos, orientadas pelo Inmetro. Ela foi desenvolvida por Senaes (Secretaria Nacional de Economia Solidária), Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e outras entidades da sociedade civil. Surge quase dois anos depois da criação de suas linhas gerais."Quando a coisa é muito "democrática", feita a 20 mãos, o processo se arrasta", diz Vanucia Nogueira, 47, superintendente do Centro de Excelência de Café do Sul de Minas, que trabalha com pequenos agricultores na região de Varginha.Enquanto não vão para as gôndolas daqui, produtos nacionais de comércio justo já certificados internacionalmente são exportados para a Europa, como manga, suco de laranja e café. Essas mercadorias são vendidas pelo "preço justo", isto é, suficiente para que pequenos produtores consigam manter tanto um padrão de vida digno quanto os modos tradicionais de produção.Um exemplo é o café. Em Minas Gerais, uma saca (60 kg) comum custa por volta de R$ 250, de acordo com o Centro de Excelência de Café do Sul de Minas. Já uma saca da produção "justa" rende ao pequeno produtor R$ 310, quase 25% a mais que o preço de mercado.Isso é financiado na outra ponta da cadeia, pelo consumidor. A diferença entre o preço comum e o "justo" varia segundo o país e o produto.Em São Paulo, o Sam's Club vende o café de comércio justo por R$ 7,38 (250 g), 17,6% mais barato que um café gourmet (R$ 8,96). Mas bem mais caro que um café comum (R$ 2,30). Apesar dos preços altos, o mercado ético mundial cresceu a uma taxa anual média de 40% nos últimos cinco anos. Em 2007, cresceu 47% e movimentou 2,3 bilhões de euros, segundo a Fairtrade, entidade que reúne 23 certificadoras internacionais e produtores da América Latina, Ásia e África. As certificadoras atestam para o consumidor que os produtos seguem os padrões do sistema."O comércio justo oferece aos consumidores uma poderosa oportunidade para assumir a responsabilidade pelo que compram. Cada vez mais pessoas se preocupam com a procedência da mercadoria e querem saber se os produtores envolvidos obtêm remuneração justa", diz Verónica Sueiro, coordenadora da Fairtrade.

Argentina : Inflação.


Fonte : America Economia -

15-08-2008 Actualidad
Índice de lágrimas al consumidor
por Rodrigo Lara Serrano, Buenos Aires

Empleados del Indec afirman que se los desplaza por negarse a manipular estadísticas. Otros dicen que no están para discutir metodologías de cálculo.
"He visto, personalmente, a encuestadores llorando y diciendo: traje el pan a 4 y me lo bajaron a 2,5". Cynthia Pok, ex encargada de la Encuesta Permanente de Hogares del Instituto Nacional de Estadística y Censos de Argentina (Indec), tiene algo de esos personajes secundarios de las novelas de Tolstoi: alguien perfectamente anónimo que, de pronto, se encuentra atrapado en medio de un puente en plena batalla.
Lo de batalla no es una metáfora. Hace un tiempo, un grupo de empleados de estadísticas pasó a entregar un petitorio de aumento de sueldo al Ministerio de Economía. "Sabían que íbamos. Nos hicieron entrar y de pronto cierran las puertas, la luz estaba baja y en el hall nos esperaba la patota que nos amenaza acá, en el Indec. Se nos abalanzan y nos comienzan a golpear. Caí al suelo. Los empleados de Economía trataban de pararlos, pero la pelea duró de 20 minutos a media hora. La policía federal (con hombres en el ministerio) estaba viendo y no intervino".
El pugilato ocurrió entre gente de la ATE (Asociación de Trabajadores del Estado) y de UPCN (Unión de Personal Público de la Nación), los dos sindicatos que conviven en el Indec. ¿Qué es lo que ha convertido a los empleados del otrora prestigioso instituto en capuletos y montescos? Simple. Una discusión sobre aceptar, o no, 10 a 12 puntos de inflación "extras".
Desde que en el primer trimestre de 2007 los encargados de varias áreas de la entidad comenzaron a ser desplazados, estalló la polémica. Los expertos, como Pok, denunciaron que se los transfería a otros puestos por su negativa a manipular estadísticas para bajar la inflación. El gobierno arguyó que, por el contrario, los desplazados eran funcionales a intereses privados para subirla: inversionistas que tienen bonos que se ajustan por un índice ligado a la inflación. Y que, por el contrario, alegan que las autoridades los están "defaulteando" a escondidas, al ocultar la tasa real de inflación.
Porque de haber inflación, hay. La otra discusión es por qué. Con superávits fiscales sostenidos sobre el 3%, las autoridades esgrimen que el origen de la inflación está en el desfase entre la demanda contenida que explotó al recomponerse los ingresos, y los cuellos de botella de inversión y producción. Centros de investigación como el CERX, describen lo anterior más bien como "una recomposición de los márgenes de ganancias de sectores productivos que habían bajado sus márgenes al mínimo". Lo anterior está en consonancia con los economistas que hablan de una clase media alta -ligada al boom de los commodities agrícolas y con consumo de país desarrollado- subsidiada por servicios públicos (gas, electricidad y agua) con precios congelados, cuyo poder de compra es altísimo. Entonces, si le suben los precios, los paga.
Visiones más liberales sostienen que lo que ocurre es que el gobierno expande el gasto demasiado por sobre la expansión de los ingresos.
Pero ¿de qué niveles de inflación estamos hablando? El problema es que oficialmente no es posible saberlo. "Este año la inflación será del 20-22%" contesta el economista Mariano Lamote, del centro de estudios Abeceb. "Nuestra estimación la ubica en torno del 28%", es la visión del también economista Ricardo Delgado, de Ecolatina. El último Informe de Inflación del Banco Central dice que los precios (minoristas) en el IPC-Resto (medición del Indec a la llamada "inflación subyacente" que no incluye energía) llegó, en junio, a un 12% . Y agrega en una frase para "entendidos": "Los diferentes indicadores de precios disponibles continúan mostrando variaciones divergentes". Algunos de alrededor del 20%.
Argentina es un país federal, de modo que varias provincias miden sus propios IPC. Los resultados para el primer semestre van desde un 6,8% para Mendoza a un 14,9% de la patagónica Río Negro, pasando por el 14,8% de San Luis, el 14,5% de Salta, el 12,4% de Tierra del Fuego y el 11,1% de Chaco. No hay que ser sabio para extrapolar un 21% anual en 2008 si la tasa cae el segundo semestre. O un 26-28% si recrudece tras un descenso en el último bimestre.
A este último respecto, las opiniones están, de nuevo, divididas. Lamote comenta que la inflación "en los dos últimos meses viene cayendo", en correlato al enfriamiento de la economía. Las ventas se desaceleran, desciende la producción industrial. Sin embargo, no es claro si ello se debe a los efectos del paro agrario de tres meses que congeló el consumo, o es un fenómeno de más largo aliento. En declaraciones a la prensa, el economista favorable al gobierno Eduardo Curia advirtió que sospechaba "que estamos en una trayectoria del tipo serrucho, donde habrá altibajos en la actividad vinculados a presiones en el consumo contra la inflación". Sería una mala noticia. Ahora, además del índice informal, más de acuerdo con sus intereses, los agentes podrán elegir la parte del "serrucho" que más les sirva.
Para la analista política y titular de Romer & Asociados, Graciela Romer, las encuestas muestran que la gente de la calle sufre "el serrucho" que golpea sus ingresos. Y ello tiene efectos políticos. "Ya a principios de año había un profundo malestar sobre la inflación creciente". De hecho, la disputa reciente sobre los impuestos a la exportación "fue una rebelión fiscal sobre la cual se montó la clase media que sufre el peso de la inflación en el deterioro de su calidad de vida". Eso, "y no un parecido con Dinamarca o Suecia, en que a la gente le haya dado un ataque de republicanismo, explica lo que pasó".
La derrota del gobierno de Cristina Kirchner, al anular el aumento impositivo, abrió la expectativa de una solución consensuada para el Indec. La oposición y varios amigos del gobierno piden, eso sí, la renuncia de Guillermo Moreno, el secretario de Comercio, que controla la entidad. En la Casa Rosada hay silencio, luego de haber defendido el cambio de metodología. Mientras, un juez investiga la manipulación de los índices y se ha pedido que la justicia nombre un veedor que reestablezca el cálculo de la manera tradicional.
Damián Comas, secretario general de UPCN en el Indec, el sindicato mayoritario en la entidad acusado de obedecer a Moreno, dice: "No discutimos metodologías de cálculo. Somos una organización sindical". Y agrega: "Trabajo acá hace 15 años. El cuestionamiento estuvo siempre". Por su parte, Pok, miembro del sindicato de ATE (Asociación de Trabajadores del Estado), se molesta. "Nadie conoce la nueva metodología. No está publicada". Y asegura que UPCN apoya a las autoridades porque "se han reclutado unas 300 personas nuevas sin capacitación", afines a ese sindicato.
Una fuente del Indec ajena a estos grupos, que pide reserva de su identidad, explica que, por un lado, "el gobierno tenía el aval para sacar a personas vinculadas a ATE porque sus concursos habían caducado". Pero, por otro, "cómo lo hizo fue horrible". Y ahora "hay gente de UPCN que cobra fortunas por tareas insignificantes. Cuidar una puerta $ 6.000 (US$ 2.000)". Esos empleados, indica, son unos 50, y están ligados al polémico Moreno. "La verdad es que muchos de ellos son buena gente. Defienden el índice nuevo porque ¿dónde van a cobrar lo que cobran acá? Y lo de la emboscada es cierto. Fue una locura".