quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Estados Unidos da América: o país onde o fracasso é recompensado

Na atual crise financeira, o modelo de capitalismo dos Estados Unidos implodiu com um grande estrondo. Mas o governo Bush está tentando extinguir as chamas com mais combustível, em vez de água, e quer que os apostadores de Wall Street sejam recompensados pelo fracasso

Gabor Steingart Em Washington (EUA)

Mais de cem anos atrás, o sociólogo alemão Georg Simmel criticou os bancos por ficarem cada vez maiores e mais poderosos do que as igrejas. A sua principal queixa - a de que o dinheiro é o novo deus dos nossos tempos - ainda é ouvida nos dias de hoje. Se Simmel estava certo, e há indicações de que de fato estava, a declaração teria que ser modificada para coadunar-se com as circunstâncias atuais: nem todo mundo reza para o mesmo deus.Entre o grupo de adoradores de dinheiro, existem pelo menos três fés. A primeira é a dos Puritanos, que carregam pacientemente o dinheiro deles para as novas igrejas, esperando que ele se multiplique. O chinês típico, por exemplo, deposita 40% dos seus rendimentos em bancos. Que disciplina louvável! E há também os Pragmáticos. Estes poupam e emprestam, mas somente nesta ordem; a poupança é o fator que limita a ousadia deles. Esta linha é especialmente comum nos países germânicos, nos quais o banco de poupança é o templo religioso.Finalmente, temos a comunidade religiosa dos Desinibidos, que é especialmente popular nos Estados Unidos. Os seus seguidores não se acanham em admitir a falta de cautela, o desperdício extravagante e a cobiça onipresente. Eles chamam isto de "American way of life" ("estilo de vida americano"). Os seus membros vivem no aqui e no agora, sem fazer perguntas sobre o amanhã. Um empresta dinheiro ao outro, mesmo que o dinheiro não lhes pertença. Em vez disso, eles tomam quantias emprestadas com uma terceira pessoa, que prometeu conseguir o dinheiro com um quarto indivíduo - e assim por diante.Southampton: o início do rastro de evidênciasEsta comunidade religiosa é a mais fervorosa de todas. Há algum tempo, ela adotou a prática de tratar dinheiro antecipado como dinheiro real e de entender desejo como realidade. Atualmente ela não conta mais com nenhum fragmento de inibição.Como todos sabiam que havia mais desejos do que dólares, o resultado inevitável foi uma certa lacuna de financiamento, ou déficit. Capitalismo sem capital - o núcleo audacioso desta inovação - não poderia funcionar. Não há salvação terrena - pelo menos esta foi uma conclusão quanto à qual o antigo Deus, aquele que carregou a cruz, e o novo deus, o que traz cifrões nos olhos, poderiam concordar. E, assim, o inevitável ocorreu: o big bang. Três entre cada cinco bancos de investimento dos Estados Unidos perderam a independência, e os outros dois ainda estão afundando. Dois bancos de hipotecas e uma companhia de seguros encontram-se agora sob administração governamental.O sistema financeiro global foi abalado, horrorizando os membros das outras duas fés. Pode haver três religiões, mas só há um céu. Se este cair, todos morrem.Uma busca por evidências a fim de identificar os responsáveis deveria provavelmente começar em Southampton, um reduto da elite endinheirada. Nesta cidade, na parte leste de Long Island, perto da cidade de Nova York, é possível presenciar o quanto a cobiça pode ser atraente. Trata-se de um lugar no qual as opções de ações foram transformadas às centenas em castelos de contos de fadas à beira-mar. Aproveitando-se das brechas tarifárias, os gurus financeiros de Wall Street conseguiram retirar os seus bônus da cidade mais ou menos intactos. Segundo a legislação tributária dos Estados Unidos, a compensação na forma de ações e garantias é taxada em menos da metade do índice mais elevado de impostos. Como resultado, a taxa tributária que incide sobre os rendimentos de muitos banqueiros é inferior àquela a que estão sujeitos os salários das suas secretárias. Como menos transformou-se em maisOs donos destas mansões à beira-mar não estão lá neste momento, de forma que uma investigação mais profunda requer uma viagem de trem até Nova York. No arranha-céu de Midtown que abriga os escritórios do Lehman Brothers, que está em processo de encerramento da sua história, há muito o que descobrir a respeito da seqüência de eventos. Bilhões de dólares foram emprestados a pessoas que não tinham crédito para que elas adquirissem condomínios e casas de pouco valor. No jargão alegre e cínico dos banqueiros, esse tipo de empréstimo foi batizado de "NINA", acrônimo de "No Income, No Asset" ("Sem renda, sem bens").Mas mesmo assim as coisas andavam bem no mundo dos financiadores. O aumento miraculoso da oferta de dinheiro contribuiu para que o preço de imóveis subisse mais de 70% entre 2000 e 2006. A indústria conseguiu obter lucros aumentando o risco. Pelo menos na folha de balanço, o menos se transformou em mais. Em tempos melhores, alguém poderia ter chamado os banqueiros de empreendedores; atualmente, eles são chamados de irresponsáveis. Antes mesmo do surgimento da expressão banco de investimentos, Karl Marx sabia como as duas coisas estavam vinculadas: "O capital tem tanto horror à ausência de lucro ou de um lucro muito pequeno quanto a natureza tem horror ao vácuo. Com um lucro apropriado, o capital é despertado; com 10% de lucro, ele pode ser usado em qualquer lugar; com 20%, torna-se vivaz; com 50%, fica positivamente ousado; com 100%, ele esmagará com os pés todas as leis humanas; e com 300%, não existe crime que ele não se disponha a cometer, ainda que se arrisque a ir para a cadeia".A fé de PaulsonAgora o rastro conduz de Nova York a Washington, onde o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, tem o seu gabinete na Avenida Pensilvânia. O seu ministério é tão importante que há um portão ligando o subsolo do Departamento do Tesouro ao da Casa Branca. A atitude adotada por Paulson em relação aos bancos foi a de deixá-los atuar livremente, e ele agora pretende assumir os prejuízos dessas instituições. Para os altos círculos financeiros, ele tornou-se algo como uma garantia extra. O objetivo dele é eliminar a ameaça de cadeia - mas não a cobiça. Paulson já foi um banqueiro de Wall Street. Ele é um homem de boas maneiras e princípios firmes. Em tempos normais, ele tem fé no mercado, em Deus e em George W. Bush. Mas em tempos como estes, ele prefere depositar a sua fé no governo, no contribuinte e em Bush. Ao contrário do que muito se anunciou, Paulson não pretende utilizar as rendas obtidas com impostos para financiar o pacote de socorro aos bancos. Em vez disso, a intenção dele é tomar novos empréstimos de bilhões de dólares em nome do Tesouro dos Estados Unidos. "Detesto o fato de termos que fazer tal coisa, mas isto é a melhor do que a única outra alternativa", disse ele na semana passada. O presidente já deu o seu sinal de aprovação.É isso o que acontece com as comunidades religiosas quando sofrem pressões: elas tornam-se ainda mais fervorosas. A idéia é que o mesmo tipo de pensamento de curto prazo que provocou o desastre vá agora pôr um fim a esta situação calamitosa. O governo está tentando extinguir o fogo com combustível, e não com água. Na verdade, este é exatamente o mesmo combustível que deu início ao incêndio em Wall Street: dinheiro emprestado.A única diferença é que os novos empréstimos não virão do sexto, do sétimo ou do oitavo membro da comunidade religiosa. Eles serão coletados de todos os contribuintes. Isso significaria o fim da separação entre igreja e Estado, sendo que Wall Street se tornaria a religião nacional. Os pontos em comum com as outras duas comunidades religiosas já estão desaparecendo. Coisas que na época da tradicionalmente honrada economia de mercado eram consideradas inseparáveis - como valor e consideração, salário e desempenho, risco e responsabilidade - estão sendo agora rasgadas em nome do governo. O capitalismo atualmente exibido pelos Estados Unidos é uma versão rota e degradada daquilo que costumava ser. As ações dos políticos estão amplificando, em vez de mitigar, os efeitos do fracasso econômico. O capitalismo no estilo norte-americano ainda não morreu, mas está simplesmente preparando o seu próprio falecimento. A história destes dias é a história de uma morte que já foi anunciada. O que nos leva a Miss Marple.Começou um jogo perigoso com o tempoA detetive amadora imaginada por Agatha Christie, baseada na avó da escritora, era equipada com algo mais do que apenas um senso de humor e uma compreensão da natureza humana. Ela também tinha experiência em relação a coisas óbvias que ninguém acredita serem possíveis - até que elas aconteçam. No seu romance de 1950, "A Murder is Announced" ("Convite para um Homicídio"), Christie olhou para o futuro de maneira cômica.A história transcorre mais ou menos assim: certa manhã, os cidadãos leram a seguinte mensagem nos classificados de um jornal local: "Um assassinato foi anunciado e ocorrerá na sexta-feira, 29 de outubro, em Little Paddocks, às 18h30. Amigos, por favor aceitem isto, a única intimação". Na hora designada, metade da vila reuniu-se na casa onde o assassinato supostamente aconteceria. A advertência é tratada como uma piada frívola, que ninguém desejaria rejeitar. Serve-se sherry aos presentes. O grupo é tomado por um pânico coletivo. Exatamente às 18h30, as luzes apagam-se."Não é maravilhoso?", diz uma voz feminina. "Estou trêmula".Quando as luzes voltam a acender-se - para a surpresa de todos - um crime foi cometido. E agora nós, assim como os presentes na sala em Little Paddocks, estamos de pé, sussurrando, tomados pelo medo coletivo, aguardando para ver o que acontecerá a seguir. E ninguém acredita seriamente que um crime de verdade está prestes a ocorrer."Todos estavam em silêncio e ninguém se movia. Todos olharam para o relógio... Quando a última nota terminou, todas as luzes apagaram-se. Murmúrios de alegria e gritinhos femininos de satisfação foram ouvidos no escuro. 'Está começando', gritou a senhora Harmon, extasiada".Um futuro vendidoQuem quer que espere receber um alerta antecipado deveria simplesmente expandir o seu campo de visão enquanto as luzes permanecerem acesas. As companhias de cartão de crédito dos Estados Unidos não estão em uma situação significativamente melhor do que os bancos. Elas também venderam o futuro e até mesmo uma parcela do período posterior a ele. A indústria automobilística norte-americana também se encontra seriamente combalida e tem dificuldades para estender as suas linhas de crédito no mercado aberto. A indústria perdeu mais de 300 mil empregos desde 1999. Mas qual é o benefício disto se são os gerentes - e não os trabalhadores - os culpados pela crise? A enorme conta dos Estados Unidos com a compra de petróleo - cerca de US$ 500 bilhões (? 345 bilhões) - é atualmente paga com dinheiro emprestado pela China. A cada dia útil, a dívida externa dos Estados Unidos aumenta em quase US$ 1 bilhão (? 690 milhões). Provavelmente a pílula mais amarga de engolir nos Estados Unidos de hoje é o fato de os lares privados não estarem administrando as suas finanças de maneira melhor do que os executivos de corporações. Estes lares vêem o reflexo de suas imagens nos banqueiros de Wall Street, e não uma espécie de figura destorcida de si próprios. "De fato, não conheço nenhum país no qual o amor pelo dinheiro tenha se estabelecido tão fortemente no sentimento dos homens", observou Alexis de Tocqueville 170 anos atrás. A conversa há muito necessária entre o governo e os governados ainda não se materializou. Essa teria que ser uma conversa a respeito da relação entre a economia e os valores, sobre a recuperação daquilo que se perdeu, em vez de sobre expansão. A palavra frugalidade - que desapareceu do vocabulário dos Desinibidos - deveria ser reintroduzida.Mas não há sinal de que nada disso esteja acontecendo. Os Estados Unidos de hoje são muito estadunidenses para sobreviverem na sua forma atual. Mas os Estados Unidos atuais são também muito orgulhosos para perceberem isto. Os fiéis dificilmente permitiriam que alguém os convertesse. Assim, a nossa compreensão dos acontecimentos continua ficando cada vez menos clara. Teve início um jogo perigoso com o tempo."O ruído de duas balas sacudiu a complacência da sala. Subitamente, o jogo não era mais um jogo. Alguém gritou... 'Luzes'. 'Não consegue encontrar um isqueiro?'...'Oh, Archie, quero sair daqui'".

Tradução: UOL
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domingo, 28 de setembro de 2008

Wall Street, descanse em paz: o fim de uma era


Julie Creswell e Ben White
Wall Street. Duas palavras simples que, assim como Hollywood e Washington, conjuram um mundo.Um mundo de grandes egos. Um mundo onde pessoas adoram apostar com dinheiro emprestado. Um mundo de negócios realizados na corda-bamba, impulsionados por computadores.Em busca de retornos cada vez maiores -e iates maiores, carros mais rápidos e coleções de arte mais caras para seus altos executivos- as firmas de Wall Street reforçaram suas mesas de negociação e contrataram gênios da física quântica para desenvolver programas à prova de falhas.Os fundos hedge colocavam os mercadores no vermelho (a alta da coroa dinamarquesa) ou no preto (a queda do PIB da Tailândia). E firmas de private equity reuniam fundos gigantes e saíam em uma onda de compras, adquirindo empresas como se fossem uma segunda esposa comprando sapatos Jimmy Choo em liquidação.Este mundo está em grande parte chegando ao fim.O imenso pacote de resgate que está sendo debatido no Congresso poderá ter sucesso em estabilizar os mercados financeiros. Mas é tarde demais para ajudar firmas como Bear Stearns e Lehman Brothers, que já desapareceram. O Merrill Lynch, cujo touro de sua marca registrada simbolizava Wall Street para muitos americanos, está sendo absorvido pelo Bank of America, localizado a centenas de quilômetros de Nova York, em Charlotte, Carolina do Norte.Para a maioria dos financistas que permanecem, com a exceção de alguns poucos superastros, os dias de dinheiro fácil e bônus gigantes são coisa do passado. O boom do crédito que levou ao crescimento explosivo de Wall Street secou. Os reguladores que ficaram de lado por muito tempo agora estão ávidos para refrear os bad boys de Wall Street e as práticas que se proliferaram nos últimos anos."Os dias aventureiros nos negócios das firmas de Wall Street, basicamente transformando a si mesmas em fundos hedge gigantes, acabaram. A verdade é que não eram tão bons", disse Andrew Kessler, um ex-administrador de fundo hedge. "Você não mais verá pessoal de nível médio ganhando um número de sete dígitos ou múltiplos números de sete dígitos que ninguém conseguia entender exatamente como conseguiram aquilo."O início do fim é sentido mesmo nos corredores do elitista e conservador Goldman Sachs, que, entre seus pares de Wall Street, resumia e definia a cultura de alto risco, alto retorno.O Goldman é uma firma que as outras firmas de Wall Street adoram odiar. Ele conta com alguns dos maiores fundos hedge e de private equity do mundo. Seus banqueiros de investimento são os mais inteligentes. Seus corretores, os melhores. São eles que ganham mais dinheiro em Wall Street, dando à firma o apelido de Goldmine (mina de ouro) Sachs. (Seus 30.522 funcionários ganharam em média US$ 600 mil no ano passado -uma média que inclui tanto secretárias quanto corretores.)Apesar dos executivos de outras firmas torcerem secretamente para que o Goldman cometesse pelo menos um grande erro, ao mesmo tempo eles se esforçavam ao máximo para copiá-la.Apesar do Goldman permanecer excelente na prestação de consultoria para fusões e na intermediação do lançamento de ações no mercado, o que ele faz melhor do que qualquer outra firma de Wall Street é negociar bens mobiliários. Isso envolve o uso de seus próprios fundos, assim como uma pilha de dinheiro emprestado, para fazer grandes apostas globais.Outras firmas tentaram seguir seu exemplo, acumulando risco e mais risco, na tentativa de capturar uma pitada da mágica do Goldman e de seus lucros estelares trimestre após trimestre.Ninguém chegou perto.Enquanto a crise de crédito tomava Wall Street ao longo do ano passado, levando o Merrill, Citigroup e Lehman Brothers a sofrerem prejuízos pesados em grandes apostas em ativos ligados a hipotecas, o Goldman continuava navegando sem grandes problemas.Em 2007, no mesmo ano em que o Citigroup e o Merrill demitiram seus presidentes-executivos, o Goldman registrou receita e lucros recordes e pagou a seu chefe, Lloyd C. Blankfein, US$ 68,7 milhões -o maior valor pago a um presidente-executivo de Wall Street.Mas até mesmo o menino de ouro de Wall Street não conseguiu suportar a turbulência que sacudiu o sistema financeiro nas últimas semanas. Após os problemas no Lehman e no American International Group (AIG), e do Merrill ter acertado às pressas sua compra pelo Bank of America há duas semanas, as ações do Goldman sofreram um golpe.A crise do AIG foi particularmente problemática. O Goldman era o maior parceiro de negócios do AIG, segundo várias pessoas ligadas à seguradora, que pediram anonimato por causa dos acordos de confidencialidade. O Goldman assegurou aos investidores que sua exposição ao AIG era imaterial, mas clientes e investidores nervosos abandonaram a firma, temerosos de que os bancos de investimento -mesmo um tão estimado quanto o Goldman- poderiam não sobreviver."O que aconteceu confirmou meu sentimento de que o Goldman Sachs, independente de quão bom fosse, não estava imune à sorte", disse John H. Gutfreund, o ex-presidente-executivo do Salomon Brothers.Assim, no último fim de semana, diante de poucas opções, o Goldman Sachs engoliu a pílula amarga e se transformou, entre todas as coisas, em algo simples e ordinário: um banco de depósitos.A ação não significa que o Goldman dará, tão cedo, torradeiras como brinde pela abertura de uma conta em uma agência em Wichita. Mas a mudança é um ataque à cultura do Goldman e ao âmago de seus lucros excepcionais nos últimos anos.Nem todos acham que a máquina de fazer dinheiro do Goldman ficará totalmente restrita. Na semana passada, o Oráculo de Omaha, Warren E. Buffett, fez um investimento de US$ 5 bilhões no banco, e o Goldman levantou outros US$ 5 bilhões em uma oferta separada de ações.Ainda assim, dizem muitas pessoas, diante de mudanças tão amplas, o Goldman Sachs poderá perder o que o tornava tão especial. Mas, até aí, poucas coisas permanecerão as mesmas em Wall Street. Tradução: Tradução: George El Khouri Andolfato
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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Entenda a crise nos isteitis





Do blog do Heraldo Leite


Este texto circula pela Internet e serve para mostrar, de forma o mais didática e simples possível, o que acontece nos EUA. O seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça "na caderneta" aos seus leais fregueses, todos bebuns e quase todos desempregados.
Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobrepreço que os pinguços pagam pelo crédito e o aumento da margem para compensar o risco).
O gerente do banco do seu Biu, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento tendo o pindura dos pinguços como garantia.
Uns zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, PQP, TDA, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer. Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Biu ). Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.
Até que alguém descobre que os bêubo da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu Biu vai à falência. E toda a cadeia sifu.




quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Meio Ambiente.


Energia verde deve criar 20 milhões de empregos até 2030

O desenvolvimento de energias alternativas deve criar mais de 20 milhões de empregos ao redor do mundo nas próximas décadas, à medida que os governos adotarem políticas de redução de gases causadores do efeito estufa, de acordo com um relatório da ONU divulgado nesta quarta-feira.Cerca de 2,3 milhões de pessoas já trabalham com energia verde, sendo metade em biocombustíveis, diz o relatório "Empregos verdes: rumo ao trabalho decente em um mundo sustentável e com baixo carbono", elaborado e patrocinado pelo programa ambiental da Organização das Nações Unidas.A criação de empregos vai depender da implementação e expansão dessas políticas nos países, incluindo a redução de emissões de gases causadores do efeito estufa e a migração de subsídios das antigas formas de energia para as novas em um esforço para diminuir o aquecimento global, diz o estudo.O relatório foi escrito antes da crise de crédito dos EUA abalar Wall Street e repercutir ao redor do mundo, o que pode desacelerar muitos setores, incluindo o de energias alternativas.O estudo diz que cerca de 12 milhões de novos empregos podem se criados ate 2030 na indústria e agricultura voltadas aos biocombustíveis.Os críticos dos biocombustíveis dizem que o etanol americano, feito principalmente de milho, faz pouco para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. Mas as empresas estão correndo para fabricar um etanol mais limpo de fontes como resíduos de lavouras e acelerando a plantação de lavouras não-comestíveis.O relatório afirma que muitos empregos na indústria de biocombustíveis não são justos com os trabalhadores."Grande parte dos empregos nas plantações de cana-de-açúcar e óleo de palma em países como Brasil, Colômbia, Malásia e Indonésia são mal remunerados e feitos em condições insalubres", diz o documento."Também existem preocupações de que a produção de biocombustíveis em larga escala possa expulsar um grande número de pessoas de suas terras no futuro", afirma o estudo. Um "acompanhamento de perto" será necessário para determinar que porção dos empregos em biocombustíveis podem ser contados como decentes, acrescenta.A fabricação, instalação e manutenção de painéis solares dede acrescentar outros 6,3 milhões de empregos até 2030, enquanto a energia eólica deve somar mais de dois milhões de empregos. Mais postos de trabalho podem ser criados nos setores de construção, reciclagem e fabricação de veículos alternativos, diz o relatório.O mundo vai tentar alcançar um acordo que suceda o Protocolo de Kyoto para tratar da mudança climática em um encontro da ONU em Copenhagem no final do ano que vem.

domingo, 21 de setembro de 2008

CD DICIONÁRIO SABER JURÍDICO.


Lançamento : Dicionário Saber Juridico.

O Dicionário Saber Jurídico 2008 é um dicionário completo para termos jurídicos,
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US$ 700 bilhões em termos reais.





David Stout

Em Washington, EUA

"Um bilhão aqui, outro acolá, e logo você estará falando sobre dinheiro de verdade".

A famosa frase do senador Everett McKinley Dirksen, republicano de Illinois, foi pronunciada há muito tempo (ele morreu em 1969), antes que jogadores de beisebol com mãos pesadas ganhassem milhões de dólares por ano na liga principal, numa época em que US$ 1 bilhão era de fato muito dinheiro.Mesmo levando em conta a inflação e o contexto dos gastos federais atuais, US$ 700 bilhões é uma soma enorme. Ela representa mais de US$2.000 dólares para cada homem, mulher e criança dos Estados Unidos.Colocando de outra forma, US$ 700 bilhões são mais do que o Produto Interno Bruto anual da Argentina e Chile juntos, de acordo com almanaques atuais.Representam quase 70% do PIB do Canadá.Mas para ficar verdadeiramente impressionado com o verdadeiro valor de US$ 700 bilhões, basta olhar para quanto dinheiro o governo dos Estados Unidos gasta em programas sociais e, pior ainda, o quanto ele gastou em guerras ao longo dos anos.A soma é mais ou menos o quanto o Pentágono espera gastar no ano fiscal que termina em 30 de setembro, incluindo os custos das campanhas no Iraque e Afeganistão. A informação é do Centro de Controle e Não-Proliferação de Armas, um grupo de pesquisa de Washington, que citou números do Serviço de Pesquisa do Congresso e dados do Departamento de Administração e Orçamento.O grupo calcula que os Estados Unidos gastaram US$ 670 bilhões (em dólares de 2007) na guerra do Vietnã, portanto a cifra que circula hoje em Washington seria suficiente para pagar pelo conflito novamente, em dinheiro e em lágrimas.Novamente, calculando em dólares de 2007, US$ 700 bilhões seriam suficientes para pagar mais de 20% do que os Estados Unidos gastaram na Segunda Guerra Mundial, diz o grupo de pesquisa. A soma é quase duas vezes o que o país gastou na Primeira Guerra, e muito mais do que o dobro do que gastou na guerra da Coréia.Os Estados Unidos gastaram meros US$ 7 bilhões, em dólares de 2007, lutando a guerra hispano-americana em 1898 - quase o mesmo valor que o governo federal gastou este ano no Programa Head Start.Este ano, o Head Start está ajudando pouco mais de 900 mil crianças de famílias pobres, de acordo com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos. É claro, o Head Start é popular politicamente, e geralmente visto como um dos programas mais benéficos inspirados pelo presidente Lyndon B. Johnson.Já foi comentado que, apesar de a burocracia federal não conseguir angariar somas astronômicas de dinheiro para pagar por cuidados de saúde e outras necessidades, ela parece preparada para fazer o mesmo para aliviar um desastre financeiro, principalmente porque, do contrário, os tremores seriam sentidos muito além dos cânions de Wall Street.E ainda há outra forma de olhar para isso: US$ 700 bilhões são mais de 40 vezes o que a NASA gastará neste ano fiscal.Se confiarmos nos Estados Unidos, como faz o presidente Bush, poderíamos esperar que todas as hipotecas problemáticas que o governo vai comprar se transformassem em bons investimentos.Mas voltemoso à cifra impressionante de US$ 700 bilhões. Pode-se dizer, em tese, que eles são suficientes para pagar pelo programa Head Start pelos próximos 100 anos, assumindo que todo o dinheiro será investido com sensibilidade e de forma conservadora o suficiente para acompanhar a inflação - uma estratégia de investimento aparentemente não muito popular hoje em dia. Tradução: Eloise De Vylder
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sábado, 20 de setembro de 2008

George Soros e a crise em Wall Street.


20/09/2008


George Soros: "Wall Street não está afundando, Wall Street está em crise"

Claire Gatinois e Anne Michel


Em entrevista ao "Le Monde", o multibilionário George Soros, 77 anos, um guru dos mercados financeiros nos Estados Unidos, oferece a sua análise da crise. Um especulador experiente, ele denuncia os "fundamentalistas do mercado", mas critica também o Federal Reserve (Fed) e o Tesouro americano. Ele os considera como responsáveis pela formação de uma "super bolha", que acabou mergulhando os Estados Unidos e a Europa na recessão.Le Monde - Wall Street está afundando. Estaríamos assistindo à queda do império americano?George Soros - Wall Street não está afundando, Wall Street está em crise. Os efeitos desta crise dependerão da sua duração. A situação não é fatal: nós estamos à beira do precipício, mas ainda não caímos nele. O mercado segue funcionando. Em contrapartida, o fato novo que ocorreu nos últimos dias é que a possibilidade de uma explosão do sistema existe efetivamente.O que está acontecendo é inacreditável! É a conseqüência daquilo que eu chamo de "o fundamentalismo de mercado", baseado naquela ideologia do "deixa rolar" e da auto-regulação dos mercados. A crise não foi provocada por fatores externos, ela é apenas a conseqüência de uma catástrofe natural. Foi o sistema que provocou sua própria perda. Ele implodiu, ou seja, sofreu um colapso por dentro.Le Monde - Teria o mundo da política a sua parte de responsabilidade nisso? E o que dizer dos reguladores do mercado?George Soros - Alan Greenspan [o antigo dirigente do Fed] tem lá sua parte de responsabilidade em tudo isso, sim, porque ele reduziu e manteve as taxas de juros baixas demais, por um período excessivo; e também porque ele deu ampla liberdade para os promotores da inovação financeira, considerando que o mundo das finanças tinha mais a ganhar com isso do que a perder. As autoridades de controle também são responsáveis pela crise, por terem dado uma liberdade excessiva aos atores dos mercados, e por terem deixado se desenvolver um mercado do credito monstruosamente extenso. Vejam só o tamanho do mercado dos derivados de créditos! As quantias que ele movimenta são calculadas em milhares de bilhões de dólares. O resultado desta política é uma crise financeira que mergulha no sofrimento, inúmeras vítimas inocentes.Le Monde - O que o senhor pensa das intervenções, efetuadas em regime de emergência, da administração americana? Serão elas eficientes?George Soros - Henri Paulson (o secretário do Tesouro) reluta em utilizar o dinheiro público. Primeiro, ele recusou-se a assinar um cheque em branco para salvar [as companhias de financiamento hipotecário] Freddie Mac e Fannie Mae, antes de se ver obrigado a fazê-lo alguns meses mais tarde. Nós assistimos às mesmas hesitações em relação ao banco de investimentos Lehman Brothers, o qual as autoridades acabaram abandonando à sua própria sorte, e também em relação à seguradora AIG que, por sua vez, foi salva em razão do risco sistêmico que a sua falência representava. Era mesmo necessário fazê-lo, porque, caso contrário, a situação teria se tornado incontrolável. Mas, essas ações são demoradas e contraproducentes. Enquanto as autoridades hesitam, a situação vai se deteriorando. Além disso, essas intervenções são paliativas, e não preventivas.Le Monde - A crise de 1929 tem sido citada como referência. Será esta uma comparação pertinente?George Soros - A grande diferença em relação à crise de 1929 é a atitude das autoridades. Elas entenderam que era preciso agir em defesa do sistema, mesmo se as modalidades de intervenção são complicadas e caras, e mesmo se não faz parte da sua cultura promover a intervenção do Estado.Le Monde - O que vai acontecer agora? Quais serão as conseqüências dessa crise para a Europa?George Soros - A fonte dos problemas está nos Estados Unidos, mas a Europa também está interessada. No que lhe diz respeito, o futuro dependerá da maneira com que as autoridades irão administrar a crise. Em função das reduções das cotações das matérias-primas, nós vamos ingressar num período de deflação. Eu penso que seria oportuno diminuir as taxas.Le Monde - A economia real será prejudicada por esta crise?George Soros - Esta crise vai se disseminar na economia real, sim. Os Estados Unidos, sem dúvida já estão em recessão, e este processo vai se acelerar no decorrer dos dois próximos trimestres. Os bancos já restringiram fortemente seus créditos. E a opinião pública americana ficou chocada com tudo o que aconteceu nesta semana. Daqui para frente, os consumidores não vão mais se endividar. Eles consumirão menos.Le Monde - Os países emergentes, como a China, também serão atingidos?George Soros - Considerando-se o desaquecimento brutal que deverá atingir a economia mundial, as exportações chinesas irão diminuir. As autoridades têm condições para agirem no sentido de estimular a economia, por meio das suas reservas de câmbios, mas, será que elas procederão corretamente? A China é um Estado burocrático e, em função disso, a crise econômica poderia degenerar numa crise política, da mesma forma que aconteceu na Indonésia em 1998. A crise do capitalismo americano poderia acabar derrubando o comunismo chinês.Le Monde - O que fazer para sair desse caos?George Soros - O sistema financeiro americano como um todo precisa ser repensado. Os bancos de investimentos deverão contar com a ajuda dos bancos de depósitos. Vai ser preciso implantar novas formas de regulação. A missão das autoridades consiste em impedir a formação de bolhas financeiras. Para tanto, elas têm instrumentos à sua disposição e elas deverão utilizá-los. O crédito precisa ser regulado, da mesma maneira que o mercado monetário. É preciso exigir dos bancos que eles acumulam fundos próprios em maior quantidade. É preciso também impedir que os preços no setor imobiliário desmoronem, e ainda limitar o número de penhoras das casas hipotecadas.Le Monde - De Barack Obama ou de John McCain, qual dos dois lhe parece reunir melhores condições para efetuar as reformas necessárias?George Soros - Eu penso que Obama tem uma melhor compreensão da situação.Le Monde - O senhor chegou a perder dinheiro nesta crise?George Soros - Eu não perdi dinheiro, mas nada ganhei. Só que eu não pretendo revelar para vocês aqui os meus segredos.Le Monde - O senhor é o "pai" dos hedge funds (fundos de investimentos mais especulativos e agressivos), cujos excessos estão no cerne da crise. O senhor não estaria arrependido de tê-los criado?George Soros - Eu não sou o pai dos hedge funds, mas sim, apenas um deles. Se eu tivesse que recomeçar tudo do zero? Eu especularia melhor... Tradução: Jean-Yves de Neufville
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