quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Contratação de executivos.


Carreira: contratação de executivos se mantém em alta, mas deve cair


SÃO PAULO - No terceiro trimestre deste ano, a procura por executivos se manteve em alta, com crescimento de 50% em relação ao mesmo período do ano passado.

Para o último trimestre do ano, por sua vez, deve-se esperar queda nas contratações destes profissionais."Muitas empresas devem diminuir o ritmo dos processos de seleções, mas não devem estancar definitivamente a abertura de vagas para seus quadros, pelo menos enquanto o ambiente econômico estiver incerto", afirmou o presidente da consultoria DBM Brasil, Cláudio Garcia.

De acordo com estudo realizado pela consultoria especializada em gestão de capital humano, apenas em setembro último, houve procura por 1.860 executivos, o que representa um aumento de 79% e relação ao mesmo mês do ano passado. Destaques no trimestre

O setor de construção foi destaque em crescimento de contratações no terceiro trimestre do ano, com avanço de oito vezes em relação ao mesmo período do ano passado, sendo responsável por 7% de toda a demanda do período.

A surpresa ficou com o setor petroquímico. Até então tímido na contratação de executivos, ele foi responsável por 6% da demanda no período de julho a setembro deste ano, com crescimento também de oito vezes. "As recentes descobertas de novos campos de exploração de petróleo e gás natural promoveram reflexos para o segmento como um todo", explicou Garcia.

Na comparação com anos anteriores, os setores de comércio e serviços são destaque em contratações, uma vez que, juntos, responderam por 29% da demanda por executivos no terceiro trimestre deste ano.

Veja quais áreas dentro das empresas que mais contrataram no terceiro trimestre: o segmento financeiro dominou o cenário, com 23% das novas vagas;comercial e marketing, juntos, responderam por 28%;a área de comercial e vendas imprimiu crescimento de 84% em relação ao terceiro trimestre de 2007;a área de marketing cresceu 55% em 2008;Setor financeiro.


Estudo interno da DBM referente aos setores que mais desligaram executivos no terceiro trimestre deste ano revelou que a área financeira teve pequena retração (0,76%) em relação ao mesmo período do ano passado. No entanto, no próximo semestre, a diferença pode aumentar.

A área ocupa a segunda colocação no ranking dos 20 setores que mais demitiram.


Em primeiro lugar nesta lista está a indústria farmacêutica - devido a fortes ajustes de portfólio de medicamentos -, seguida da área de produtos de consumo.

Neste último caso, o motivo é a crise, que deve estar contraindo o varejo.


As áreas eletroeletrônica e serviços completam as cinco primeiras colocações no ranking de profissionais demitidos.


Por: Flávia Furlan Nunes

12/11/08 - 13h54

InfoMoney

sábado, 8 de novembro de 2008

PAUL SINGER : Caindo na real.


É nos momentos de crise financeira que a opinião pública se volta a este tema: como se relacionam o mundo financeiro, com suas vicissitudes especulativas, e o mundo da economia real. São dois mundos distintos: no primeiro circulam valores monetários que são créditos; no segundo circulam bens e serviços que satisfazem necessidades de seres humanos. Estes últimos são mercadorias -produtos destinados à venda, sendo também valores monetários. A diferença entre ativos financeiros e mercadorias é que os primeiros são virtuais, só valem como promessas de ganhos futuros,enquanto os últimos são reais, prontos para serem utilizados ou consumidos.As finanças prestam serviços à economia real: recebem em depósito a poupança de entidades (famílias, empresas e governos) e lhes oferecem empréstimos.Bancos, fundos e congêneres recolhem o dinheiro sobrante dessas entidades,que têm poupanças, e o emprestam a outras, que necessitam de dinheiro.O que efetivamente importa é que os bancos podem emprestar mais dinheiro do que captaram do público ou de outros intermediários. Eles podem fazer isso porque gozam de crédito por parte do público, que aceita em pagamento transferências de depósitos bancários.Cheques e cartões eletrônicos são ordens de pagamento que o cliente do banco emite para que as dívidas que ele faz em lojas, restaurantes etc. sejam pagas pelo seu banco. A grande maioria das transações dos agentes da economia real é liquidada por meios de pagamento bancários. Só transações de pouco valor são liquidadas por meio da moeda oficial emitida pelo Banco Central ou pelo Tesouro do governo nacional.O valor dos créditos concedidos por um banco durante um período não tem que equivaler ao valor novo depositado por clientes que poupam; pode ser maior,igual ou menor.Quando é maior, o banco criou mais meios de pagamento do que absorveu.Ao conceder um crédito a um cliente, o banco acrescenta o valor do crédito ao depósito do cliente. Este usa o cartão de crédito ou cheque para transferir o valor acrescentado ao seu saldo aos seus fornecedores de equipamentos, instalações, matérias-primas etc., que são os elementos materiais do seu investimento. Os fornecedores depositam imediatamente o dinheiro recebido em suas contas bancárias.Quando todos os bancos, no afã de ganhar mais, ampliam os empréstimos a agentes da economia real, os depósitos em todos eles aumentam, na medida em que os créditos fluem das contas dos devedores às dos credores.Euforia contagiante O efeito importante é sobre a economia real, que se expande à medida que os investimentos crescem. A expansão se auto-alimenta, pois os desempregados que conseguem trabalho aumentam os gastos, o que suscita novos investimentos, a ampliação da produção e a criação de mais empregos.Os bancos ganham dinheiro fazendo empréstimos, pelos quais cobram juros. Os serviços que prestam aos depositantes só lhes dão despesas. Os bancos precisam dos depósitos dos poupadores porque constituem o lastro dos empréstimos que fazem.O Banco Central exige que os bancos mantenham certa proporção de seus depósitos à vista em moeda oficial, que serve para cobrir eventuais saques dos depositantes.Além disso, os bancos são obrigados a deixar no Banco Central uma proporção maior dos seus depósitos, o que limita sua capacidade de conceder novos empréstimos.Dessa forma, o Banco Central evita que o crescimento da economia real ultrapasse certo limiar, a partir do qual ele teme que pressões inflacionárias se intensifiquem.A fase de alta do ciclo se origina mais freqüentemente na economia real do que no âmbito financeiro. Ela é desencadeada geralmente por inovações tecnológicas de grande impacto sobre a produção ou o consumo ou por políticas de transferência de rendimentos à população mais pobre.Tanto a realização de inovações tecnológicas como o aumento dos gastos dos beneficiários da redistribuição exigem investimentos vultosos. As empresas que investem aumentam a demanda por empréstimos, o que normalmente evoca resposta favorável dos bancos e fundos. A alta cíclica da economia real entusiasma os banqueiros, convictos de que os riscos de que os empréstimos deixem de ser pagos se tornaram insignificantes.À medida que as expectativas otimistas se realizam, o entusiasmo cresce, a tese tornar euforia, que é contagiante.Batendo no teto . Enquanto o potencial das inovações tecnológicas ou das políticas re-distributivas não estiver esgotado, a fase de alta do ciclo se eleva cada vez mais. Até que ela bate num teto. Este pode ter por causa a expansão insuficiente da oferta de mercadorias,limitada por pontos de estrangulamento, de modo que a pressão da demanda resulta em aumentos de preços. O perigo de inflação pode levar o Banco Central a abortar a alta cíclica por meio da elevação dos juros.Ou o teto em que bate a alta pode ser a superprodução de mercadorias diante da saturação da demanda.Esse foi o caso da bolha imobiliária, cujo estouro originou a atual crise financeira. A demanda por habitação costuma ser grande, mas, quando finalmente se esgota, a quantidade de construções em andamento está no auge.Interrompê-las pode ser extremamente custoso, mas levá-las a cabo implica em mais investimentos numa mercadoria que, quando pronta, provavelmente se tornará invendável, a não ser que seja liqüidada por preço muito abaixo do custo.O estouro de uma bolha imobiliária atinge em cheio as finanças porque empréstimos hipotecários têm elevada garantia material -qual seja, os próprios imóveis.Até a bolha atingir seu apogeu, esse setor atrai enorme quantidade de dinheiro, a ser emprestado às famílias que adquirem a casa própria. Quando a oferta de residências ultrapassa a incorporadores e a quem os financia.Nos EUA, durante a euforia, instituições financeiras fizeram empréstimos à população de baixa renda, tomando por base o valor crescente dos imóveis que estavam comprando.Esses créditos foram em seguida vendidos ao público pelas instituições financiadoras, que os empacotaram com outros títulos, numa manobra conhecida como "diluição de riscos".A operação foi um sucesso: títulos no valor de muitos bilhões de dólares foram adquiridos por numerosos bancos de investimento, não só dos EUA, mas também da Europa.Quando a bolha estourou e os preços das residências sofreram forte queda,eles ficaram menores que as dívidas hipotecárias assumidas por milhões de famílias pobres. O prejuízo causado pelo estouro da bolha foi assim colocado sobre os ombros de quem menos podia suportá-lo.Os devedores deixaram de honrar suas dívidas, arriscando-se a perder suas casas e apartamentos, cada vez mais desvalorizados. O prejuízo bilionário da crise imobiliária voltou então ao colo dos bancos, que também se mostraram incapazes de suportá-lo. Um grande banco norte-americano faliu e diversos outros foram provisoriamente estatizados, tanto na América do Norte como na Europa.O que está ocorrendo ilustra bem como uma crise na construção de residências ,portanto, na economia real- provoca uma crise que rapidamente atinge a maioria dos intermediários financeiros no mundo todo, com a conseqüente desaparição do crédito à economia real.Uma crise setorial e nacional, ao contaminar as finanças mundiais, poderá,se não for debelada logo, lançar a economia real numa recessão global.Neste momento, os Estados nacionais estão empenhados em evitar esse desenlace, mas, apesar dos bilhões que estão sendo injetados nos bancos, o pânico ainda não cedeu.A globalização financeira, produto da liberdade total de circulação dos capitais sobre as fronteiras nacionais de numerosos países, corrói o poder do Estado nacional sobre as finanças do seu país.O sistema financeiro impõe seus interesses, pois, se o governo os ferir, ele se retira do país, comprando dólares e euros com a moeda nacional, que porisso se desvaloriza.Isso faz com que as importações encareçam e a produção e o emprego despenquem, pela falta de crédito.Trata-se de circunscrever a crise financeira, para evitar que ela venha a paralisar a economia real, o que teria graves conseqüências sociais e políticas, pois ela começa por lançar no desemprego e, logo mais, na miséria uma parcela substancial da sociedade.Uma crise da economia real é muito mais difícil de reverter por políticas de Estado, porque seria necessário criar novas atividades capazes de reinserir milhões de pessoas na economia mediante políticas de fomento e incentivo que somente poderão ser definidas por um processo prolongado de tentativa e erro.A grande crise de 1929 levou uma década para ser superada e, mesmo assim,graças ao "auxílio" de uma guerra mundial.A crise da economia real poderá ser prevenida desde que sejam adotadas políticas capazes de resolver em curto prazo a crise financeira e que lancemos fundamentos de uma nova estrutura institucional, capaz de evitar novas crises financeiras no futuro.O Estado deveria se apossar dos bancos falidos e só então reabilitá-los com recursos do Tesouro. Se os bancos continuarem privados, é provável que o dinheiro público injetado neles seja entesourado, o que faria o pânico perdurar.O primeiro passo deve ser a restauração da autoridade do governo nacional sobre o sistema financeiro, o que exige a revogação da liberdade dos capitais especulativos de curto prazo de entrar e sair de qualquer país,aproveitando as vicissitudes do jogo especulativo.Além disso, é imperativo multiplicar o número e o poder dos bancos públicos,pois, não tendo a preocupação de revelar lucros elevados em cada balancete trimestral, eles podem devotar seus recursos ao interesse público, escapando do pânico que traz a recessão.O governo federal conta apenas com os bancos públicos em sua luta para restaurar a oferta de crédito e preservar o ritmo de desenvolvimento do país.Finalmente, o mercado de capitais teria de ser reformulado, tendo em vista não só coibir a especulação, mas também reconstruir os laços entre o investidor privado e o empreendimento em que ele é sócio.Para viabilizar isso, seria necessário limitar o número de sócios de cada firma, para que cada um possa participar efetivamente da administração dela,pelo menos na condição de membro de uma assembléia de acionistas com influência real sobre a empresa.Só assim a distribuição do excedente social entre os setores da economia deixaria de ser feita em alucinantes leilões diários de ações, em que todos procuram a valorização imediata de seu dinheiro, pois, como todos sabem,"time is money".


PAUL SINGER é professor titular da Faculdade de Economia e Administração da USP e secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

" APERTEM OS CINTOS "!!!!

Santiago. Las economías más avanzadas del mundo podrían enfrentar en 2009 el primer año completo de crecimiento negativo desde la Segunda Guerra Mundial. Y América Latina, a pesar de que hasta ahora ha resistido los embates de la tormenta externa, el próximo año no podrá quedar inmune a los efectos de la desaceleración global.
Un mayor deterioro financiero y el descenso de la confianza de productores y consumidores, sumado al debilitamiento de la demanda externa y a un esperable ajuste en los precios de las materias primas y el petróleo, aparecen en el horizonte como los principales factores de riesgo para las economías de la región. ¿El resultado? Menor producción, una fuerte caída del consumo, y del empleo.
Como consecuencia del grave deterioro de las condiciones globales, las dos mayores economías de América Latina, Brasil y México, crecerán en 2009 menos de lo previsto hace un mes atrás, señaló este jueves el Fondo Monetario Internacional (FMI), que además recortó al 2,5% su pronóstico de crecimiento para la región en 2009, en vista de que desde entonces las cosas sólo han ido peor. Para 2008, el organismo prevé un crecimiento de 4,5% para la región.
Para Brasil, el FMI rebajó la expectativa de expansión económica para el 2009 a un 3,0% desde el 3,5% previo. En el caso de México, la proyección fue reducida a un 0,9%, desde el 1,8% publicado hace apenas un mes. Pese a que el organismo no dio datos de otros países de América Latina, los analistas anticipan que la mayoría sufrirá los embates de la crisis, aunque en mayor o menor medida de acuerdo a sus condiciones macroeconómicas particulares.
Brasil, la mayor economía de la región, está muy conectada con la de Argentina, Uruguay y Paraguay. Y México tiene una elevada dependencia de su vecino Estados Unidos, donde el FMI espera una contracción del 0,7% el próximo año. Jörg Decressin, responsable del informe, atribuyó la revisión de los números de Brasil a la caída de los precios de las materias primas que exporta, de la demanda internacional y a la reciente caída de su bolsa.
Desaceleración, no recesión. Si bien los pronósticos para la región distan de ser alentadores, los analistas prevén que el impacto de la crisis financiera será más cercano a una “desaceleración” que a una “recesión”. Las medidas adoptadas en la última década para disminuir las vulnerabilidades externas están ayudando a los países latinoamericanos a mitigar los efectos negativos del shock global. “Aunque la región no es inmune al deterioro de las condiciones financieras y económicas internacionales, se encuentra en una posición macroeconómica más saludable, que le permitiría evitar una recesión”, anticipa Alfredo Coutino, especialista para América Latina de Moody’s Economy.com. “Salvo que todo el mundo entre en una contracción severa”, aclara.
El contagio de la crisis internacional será por los canales tradicionales: exportaciones, turismo, remesas, inversión extranjera y también debido a los efectos derivados de la contracción global del crédito, que redundarán en una menor disponibilidad de financiamiento externo y mayores costos. Según destaca Coutino, si bien los mercados latinoamericanos no escaparon a la ola global de contracciones, han sido golpeados en menor grado que otros mercados en Europa, Asia y Rusia (ver gráfico). Esto, en buena medida, gracias a las reformas regulatorias implementadas por los gobiernos tras la crisis de finales de los 90, asegura Coutino.
¿Quiénes sufrirán más? Los países con mayor riesgo serán Argentina, Bolivia y Ecuador, no sólo por su dependencia de las exportaciones de materias primas, sino también por la necesidad de financiamiento externo, dice Coutino en un paper publicado este jueves. “A pesar de que Venezuela y México enfrentarán una reducción significativa de sus ingresos petroleros, conservan un nivel suficiente de reservas internacionales para sobreponerse”, aclara.
El resto de los grandes jugadores latinoamericanos estarán en mejor forma, pero no inmunizados totalmente, para resistir los efectos de la crisis del crédito, añade. Aunque con previsiones más optimistas que las del FMI (Moody’s predice que la región moderará su crecimiento a 3,4% el próximo año, contra el 2,5% del organismo), Coutino prevé que en términos macroeconómicos Brasil, Chile y Perú (ver
Perú podría crecer hasta 9,5% en 2008) estarán en condiciones de mayor fortaleza, mientras que Argentina, Venezuela y Colombia enfrentarán las turbulencias con más debilidad. México, en tanto, reportará una de las performances más bajas de la región, debido a sus lazos cercanos con el ciclo de negocios de Estados Unidos. “Sin embargo, por su saludable situación fiscal, México no será arrastrado hacia una recesión, en gran medidas gracias a las medidas de estímulo aplicadas por el Gobierno, como las inversiones en programas de infraestructura”, anticipó.
El hecho de que el epicentro del terremoto haya sido externo a la región, y que América Latina haya aprendido las lecciones de su propia historia corrigiendo los desequilibrios macroeconómicos del pasado, no debería inducir a los gobiernos locales a ser indulgentes o despreocupados, alerta el especialista. “Por el contrario, debería ser un estímulo para reforzar la disciplina macroeconómica y profundizar las reformas estructurales”, concluye.

Fonte : AmericaEconomia.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A hora e a vez do private equity



Com a escassez de crédito, ocasionada pela crise financeira internacional, abre-se uma excelente oportunidade para os fundos que financiam a expansão de empresas


A próxima Quarta-feira de Cinzas promete ser um divisor de águas. Se for confirmada a expectativa de Marcelo Aguiar, conselheiro deliberativo da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP), os fundos de private equity deverão atuar mais agressivamente assim que passar o período de Carnaval, em fevereiro. A esperança é que até lá, a crise financeira mundial arrefeça. "O mercado ainda está um pouco assustado, pois há dúvidas se já chegamos ao fundo do poço", explica. Enquanto as dúvidas quanto ao que pode acontecer perduram, os fundos de private equity - que financiam a expansão de empresas que não estão listadas na bolsa de valores - avaliam as melhores oportunidades do mercado. Aguiar, que também é diretor do fundo AIG Capital, atenta para a atual escassez de crédito, que vai fortalecer a atuação dos fundos de private equity, afinal, com menos financiamentos, as empresas ficarão mais abertas a investidores.
André Burguer, sócio da Fama Private Equity, também se mostra otimista. Para ele, as companhias que já traçaram planos para investir em expansão inevitavelmente buscarão recursos em fundos de private equity, mesmo que este tipo de capital normalmente seja mais caro em relação aos financiamentos bancários.
Mas nem todas as organizações que necessitam recursos encontrarão nestes fundos o respaldo para crescer. É que a cautela será fator preponderante na escolha de quais empresas apostar. "Como as oportunidades de investimentos deverão aumentar, apenas aqueles projetos mais rentáveis e melhor estruturados vão conseguir os recursos", afirma. Ao contrário de Aguiar, que aponta o Carnaval de 2009 como o marco de um novo período, Burguer prefere não arriscar uma previsão de quando a busca por empresas ganhará novo fôlego. "A discussão que está colocada por alguns gestores é que se aguardarmos um pouco mais para investir, isso pode significar preços menores pelos ativos que estarão sendo comprados. Por outro lado, há empresas que estão adiando seus projetos de expansão por não terem mais claro o cenário do mercado no longo prazo e depois da crise", explica Burguer.
O estudo "Buscando diferenciação num contexto de mudanças", elaborado pela PricewaterhouseCoopers, revela que serão justamente os fundos de private equity os maiores portadores de crédito em 2009. No ano passado, o setor aplicou globalmente US$ 297 bilhões. O salto foi de aproximadamente 26% em relação a 2006. As transações envolvendo fundos de private equity representaram hoje 20% do total no Brasil - pouco, se comparado ao índice mundial de 33%. O potencial a ser explorado demonstra uma curva rumo ao crescimento: "Há setores que sofreram menos com a crise, como varejo, bens de consumo e infra-estrutura", diz Alexandre Pierantoni, sócio da área de fusões e aquisições da PricewaterhouseCoopers. De acordo com o executivo da PwC, os países que sairão beneficiados pelas atividades de private equtiy serão Brasil, Rússia, Índia e China (BRICS). "O Brasil, em especial, continua atrativo, pois há vários fundos captando recursos para investir por aqui", completa Pierantoni.


Por Marcos Graciani.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Pão de Açucar.


"Tinha muita gente vendendo vento" antes da crise, diz Abilio DinizPresidente do conselho do Pão de Açúcar afirma que agora o mundo ficará mais realista e que a empresa será olhada com mais atenção pelo mercado Portal EXAME O presidente do conselho de administração do grupo Pão de Açúcar, Abilio Diniz, fez nesta quarta-feira uma análise bastante otimista sobre o que vai emergir da atual crise financeira. "Espero que o mundo vai ficar um pouco melhor, mais realista. Existia muita venda de vento e também gente comprando vento na outra ponta. Eu e o Claudio [Galeazzi, presidente da companhia] nunca fomos muito bons de vender vento. Acreditamos que agora nossa companhia será olhada com mais atenção e mais carinho", disse ele em teleconferência com analistas de mercado. O empresário não citou exemplos de empresas de vento. No ano passado, no entanto, mais de 60 companhias abriram o capital e passaram a ter ações negociadas na Bovespa, muitas delas sem ter nenhum investimento concluído ou fábrica em operação. As ações de algumas dessas empresas acumulam perdas de mais de 90% desde o IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês). O resultado é que, durante este ano, com a virada do mercado, é bastante provável que menos de dez novas empresas cheguem à Bovespa. Abilio Diniz disse que ninguém podia adivinhar que a crise teria as proporções alcançadas, mas afirmou que o Pão de Açúcar estava preparado. "Os 140 anos de experiência, os meus e os do Claudio [Galeazzi] somados, foram importantes. Em setembro tínhamos mais de 1 bilhão de reais em caixa, reforçamos o caixa desde então e aumentamos nossas vendas", afirmou. A empresa disse que a dívida líquida do Pão de Açúcar é menor do que seu Ebitda (lucro antes de impostos e amortizações) anual, que não há débitos em dólar e que não houve apostas em nenhum "jogo" de derivativos para melhorar os resultados. O objetivo da empresa, segundo ele, é manter as vendas em alta no Natal e "aproveitar todas as oportunidades em termos de compras". No terceiro trimestre, o Pão de Açúcar registrou um lucro líquido de 82,5 milhões de reais, com um crescimento de 138% em relação ao mesmo período do ano passado. As vendas tiveram alta de 13,6% pelo critério de mesmas lojas. Já o Ebitda alcançou o recorde de 357 milhões de reais, uma alta de 50%.De acordo com a Brascan Corretora, os resultados foram positivos e devem favorecer as cotações das ações da empresa. Para os analistas, o grupo é menos suscetível à crise do crédito por ter a maior parte do faturamento obtido com a venda de produtos essenciais. A corretora também informou que pode rever o preço-alvo das ações preferenciais do Pão de Açúcar (PCAR4), que hoje é de 42,50. Nesta quarta-feira, às 12h27, os papéis registravam alta de 0,20%, para 34,63 reais. Investimentos Além de mostrar otimismo com o futuro da empresa, Abilio Diniz também afirmou que a economia brasileira "é de certa forma privilegiada" quando comparada com outros países em que visitou nos últimos meses. "Os investidores vão trazer dinheiro ao Brasil quando a crise passar. (...) Pode ser que não cresçamos no mesmo ritmo que vínhamos crescendo, mas vamos continuar em frente. Até os cenários pessimistas poderão ser enfrentados, mesmo acreditando que eles não virão", disse. Apesar do otimismo, o Grupo Pão de Açúcar informou que vai investir 500 milhões de reais neste ano, montante abaixo da previsão inicial (730 milhões de reais). Segundo a empresa, todos os planos de expansão estão mantidos. O Pão de Açúcar apenas reduziu a velocidade de aquisição de terrenos para a construção de novas lojas devido à dificuldade de encontrar locais viáveis para a instalação de unidades, mas informou que pode pôr o pé no acelerador nos próximos meses. Claudio Galeazzi, presidente da empresa, afirma: "somos senhores do acelerador e do breque, pela nossa posição de caixa e pela nossa posição de negociar com fornecedores."Exame

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Lírio Parisotto : A encarnação do otimismo .


O empresário e investidor Lírio Parisotto viu 600 milhões de reais em ações desaparecerem. Sua empresa, a Videolar, passa por dificuldades. Medo? Pânico? Que nadaGermano Lüders Parisotto, em seu escritório: a frustração é não ter mais dinheiro para investir.Nas últimas duas décadas, o empresário gaúcho Lírio Parisotto, de 54 anos, construiu o que pode se chamar de uma história de sucesso. Nascido numa família de agricultores, trabalhou como representante comercial até criar a Videolar, em 1988. A empresa, que nasceu produzindo fitas cassete e VHS, hoje fatura 1,4 bilhão de reais e é líder de mercado entre os fabricantes nacionais de CDs e DVDs. Uma década depois da criação de seu negócio, em 1998, Parisotto decidiu entrar no mercado de ações aplicando recursos próprios na bolsa. Em seu melhor momento, chegou a multiplicar por 7 os 200 milhões de reais que investiu no período, transformando-se num dos maiores investidores individuais da Bovespa. Tudo parecia bem até 15 de setembro, quando eclodiu a crise financeira que derrubou os mercados do mundo inteiro. Em pouco mais de um mês, Parisotto perdeu nada menos que 600 milhões de reais, dinheiro suficiente para deixar qualquer ser humano prostrado. Mas ele continua otimista. "Prefiro pensar que não perdi nada porque não vendi nada. As ações vão subir", disse Parisotto a EXAME em seu escritório, instalado dentro da corretora Geração Futuro, responsável pela carteira. "Mas é claro que eu adoraria ter vendido todas um dia antes da queda." Parisotto é um fundamentalista da bolsa de valores, aquele tipo de investidor que, depois de convertido ao mercado acionário, simplesmente o transforma numa profissão de fé. Desde que deixou o comando da Videolar, no início do ano, passa a maior parte do tempo no amplo espaço composto de três salas na Geração Futuro. Esse arranjo foi idéia dos donos da corretora, um sinal de deferência pelo tamanho de sua carteira de ações. Mesmo com o tombo dos últimos tempos, o portfólio de Parisotto está hoje em torno de 700 milhões de reais, e é parte de um fundo ainda maior que ele tem, com outros 15 investidores - a quem chama de confrades. Quando está em sua sala na corretora, o que acontece de segunda a sexta, desde de manhã até bem depois que os mercados fecham, Parisotto acompanha as oscilações de seus investimentos em um monitor de 26 polegadas. Ao fim do pregão, o mesmo ritual: um dos operadores lhe entrega um boletim com o saldo do dia. Por enquanto, seu desempenho tem sido melhor do que o da bolsa - seu fundo perdeu 46% no ano, ante os 54% do Ibovespa. Apesar do mais de meio bilhão de reais perdido, o empresário-investidor vem desenvolvendo uma estratégia ainda mais agressiva nestes tempos de crise. A idéia é usar tudo o que for pago em dividendos das empresas da carteira - algo como 100 milhões de reais por ano - para comprar o que estiver na bacia das almas. Para ele, os papéis de Vale, Usiminas e Randon estão "de graça". "Triste não é a queda da bolsa, é não ter mais dinheiro para investir. Sinto-me como Imelda Marcos numa loja de sapatos", diz, referindo-se à mulher do ex-ditador das Filipinas Ferdinand Marcos, famosa por sua coleção de 3 000 pares de sapatos. Com quase uma década de bolsa de valores, Parisotto desenvolveu uma cartilha bem própria para definir que papéis comprar e o melhor momento para fazê-lo. Entre suas regras peculiares, está manter distância de IPOs. "Para mim, o que chegou à bolsa é lixo." Não compra Petrobras ("a empresa é muito emperrada") e também tem horror a cadeias varejistas e companhias aéreas. "Se não estão quebradas, quebrarão um dia", diz. Antes de sair às compras, estuda a fundo os balanços das empresas e, principalmente, verifica se a companhia é boa pagadora de dividendos - em média, se dá por satisfeito com 40% do lucro. "Queda de preço não me preocupa. O que me deixaria apavorado é queda no lucro." Isso é o que mais o tem incomodado em relação a algumas empresas de seu portfólio. "Estou perdendo a paciência com a Braskem. Já passou da hora de essa empresa dar mais lucro." Na defesa de seus interesses, Parisotto chegou a cobrar uma melhora nos resultados diretamente do presidente da companhia, na época José Carlos Grubisich, de quem é vizinho. "Acho que ele passou a mudar de caminho quando me via, porque depois disso não o encontrei nunca mais." Para ajudar no processo decisório, Parisotto tem ainda um método especial que, segundo ele, é infalível para saber se os executivos de uma companhia são dedicados ou não. "Basta ver se contratam consultorias. Consultoria é coisa de executivo preguiçoso." Neste momento, a bolsa tem sido um enorme desafio para Parisotto, mas está longe de ser o único. A empresa que deu origem à sua fortuna, a Videolar, também passa por momentos de dificuldade. No ano passado, a receita caiu cerca de 10% e o lucro diminuiu 70%. Os números não são tão trágicos quanto as perdas no mercado de ações, mas foram encarados como um aviso de que a situação requer cuidados. Nunca, em 20 anos de história, a Videolar havia registrado queda de faturamento. Tal resultado é atribuído à concorrência de produtos piratas, principalmente CDs e DVDs gravados, e à invasão de produtos chineses, especialmente de discos para gravação. "Estamos fazendo um esforço imenso para manter em 2008 os números do ano passado, mas não está fácil", diz Phillip Wojdyslawski, sócio de Parisotto na Videolar e atual presidente da empresa. Parisotto lhe passou o cargo depois de concluir, há dois anos, que se cansou de enfrentar os problemas do setor. Àquela altura, vivia com pressão alta e insônia. "Decidi jogar a toalha em relação à pirataria, porque a sociedade a tolera", diz o empresário. Sob o cerco dos chineses Para alguém tão chegado ao mercado de ações, a hipótese de abrir o capital chegou a passar pela cabeça de Parisotto, mas ele acabou não se animando muito. "Quando ainda presidia a empresa, havia pilhas de propostas de bancos em minha mesa. A Videolar está arrumada, tem balanços auditados, mas eu não abriria o capital de uma empresa que não tenho coragem de oferecer a meu melhor amigo", diz. Num recurso extremo, Wojdyslawski pediu recentemente salvaguardas ao governo brasileiro em relação aos produtos chineses. Os trâmites do processo demoram um ano e, caso o governo aceite os argumentos da empresa, os importados deverão ser sobretaxados. Com isso, a Videolar ganhará oxigênio extra. "Seremos os últimos a apagar a luz, produziremos até o último cliente, mas sei que esse negócio não tem futuro", diz Parisotto. Outra tentativa para recuperar a empresa é um investimento de 100 milhões de dólares previsto para 2012: a ampliação de uma petroquímica que é parte do grupo e produz resinas em Manaus. A unidade foi construída em 2002 para, inicialmente, fornecer plástico à Videolar e, eventualmente, vender o excedente a outras indústrias de eletrônicos da Amazônia. O negócio vai bem e, hoje, responde por um terço das receitas e quase todo o lucro da Videolar. "Essa será a nova cara da empresa." Quem não conhece a trajetória de Parisotto pode estranhar o otimismo com que o empresário enfrenta os desafios. Ele nasceu em Nova Bassano, no interior do Rio Grande do Sul, numa família pobre de agricultores. Sua história de empreendedor é exemplar. Na década de 70, Parisotto vendia toca-fitas para automóveis comprados em São Paulo. Na época, poucos carros que saíam de fábrica tinham o aparelho como item de série e a empreitada foi um sucesso. Em 1980, abriu uma loja de equipamentos eletrônicos em Caxias do Sul. Em 1985, foi convidado pela Sony para participar de uma convenção no Japão e, lá, conheceu o processo de fabricação de fitas de vídeo sob medida para o tamanho do filme e de gravação de filmes - o que evitava desperdícios e, portanto, custos. Mais tarde, em uma viagem a Nova York, conheceu o videocassete. Dois anos depois, com o país em crise, Parisotto vendeu a loja aos sócios e, em 1988, com 2 milhões de dólares em caixa, montou a Videolar, em Caxias do Sul. A empresa, localizada a mais de 1 000 quilômetros do principal mercado consumidor - a cidade de São Paulo -, foi a primeira fábrica brasileira de gravação de conteúdo em fitas fabricadas sob medida para o tempo de reprodução. "Sempre fui um otimista". As perdas na bolsa Nos últimos 60 dias, Parisotto só saiu duas vezes da frente de seu monitor. Foram duas viagens rápidas ao exterior. Na primeira, foi a Nova York fechar a compra de um apartamento. "Os preços caíram", diz. Na segunda, foi com quatro amigos à região da Borgonha, na França, visitar produtores do famoso vinho Romanée-Conti, um dos mais caros do mundo e uma de suas paixões. Garante que, em ambas ocasiões, não entrou na internet nenhuma vez para ver os fechamentos do pregão. "Assim como o ministro Guido Mantega, não perdi uma noite de sono com a crise." Quando reafirma sua postura de tranqüilidade, Parisotto preocupa-se em não parecer, com a atitude, tripudiar sobre as desventuras econômicas alheias. "Sei que as pessoas estão num momento ruim. Mas é preciso trabalhar e olhar o longo prazo, porque as crises têm início e fim." Nesse sentido, diz que quem o inspira é o mítico investidor americano Warren Buffett, o homem mais rico do mundo. Parisotto está lendo sua recém-publicada biografia, Snow Ball, de Alice Schroeder. Assim que Buffett anunciou que compraria 5% do banco de investimento em crise Goldman Sachs, há um mês, Parisotto decidiu comprar dez ações de sua empresa de participações, a Berkshire Hathaway, por 115 000 dólares cada uma. O objetivo é participar, no próximo ano, da assembléia de acionistas da empresa em Omaha, no remoto estado de Nebraska, apenas pelo prazer de estar lá. "Quem dera ter o discernimento e a serenidade de Buffett", diz. Com a calma que Parisotto demonstra diante de um tombo de mais de meio bilhão, até que ele não está tão longe de seu objetivo.Confissões de um investidor Como Lírio Parisotto vê a crise que tem abalado a Bovespa "Dou uma garrafa de Romanée-Conti a quem me disser qual analista previu a bolsa nos 30 000 pontos de agora ""A hora certa de entrar na bolsa não é na alta nem na baixa. É quando se tem dinheiro, e estou triste por não ter mais dinheiro agora para comprar mais ""Quando o mercado está em baixa, me sinto como uma Imelda Marcos em uma loja de sapatos "Não compro papel nem de empresas de varejo nem de companhias aéreas. Comércio e companhia aérea, se já não estão quebrados, um dia quebrarão ""Quem me dera um dia ter a tranqüilidade e o discernimento de Warren Buffett ""Não abriria o capital de uma empresa se eu não tivesse coragem de oferecê-la a meu melhor amigo"

Sete amargas lições de uma crise



O maior crash da história recente do capitalismo mostra que os instrumentos de controle e prevenção das companhias precisam ser aperfeiçoados


Por: Fernanda Arechavaleta e Marcos Graciani -

Revista Amanhã - RS.


A crise que abalou todo o sistema financeiro mundial, com o desmoronamento dos grandes bancos de investimento norte-americanos, ainda pode fazer muitas vítimas, uma vez que não se conhece toda a extensão das perdas das instituições alavancadas nas hipotecas podres dos Estados Unidos. Mas, se não é possível antever todas as implicações do estouro da bolha imobiliária - e nem mesmo se as medidas adotadas pelos Bancos Centrais e governos vão resolver o problema -, uma coisa é certa: as empresas terão de revisar seus processos de análise de risco e de tomada de decisão. Afinal, os desdobramentos da crise mostraram que nem todas tinham mecanismos eficientes para gerenciar os riscos a que estavam expostas - ou, se tinham, não os utilizaram adequadamente.
Mesmo tradicionais companhias brasileiras do ramo industrial, como Sadia, Aracruz e Grupo Votorantim, perderam alguns bilhões com a elevada exposição cambial. No caso da Aracruz, os prejuízos com aplicações em derivativos cambiais somaram R$ 1,95 bilhão - montante equivalente a quase o dobro de todo o lucro líquido obtido em 2007 (R$ 1 bilhão). O aperto no caixa levou à suspensão da incorporação da companhia pela VCP, no que era considerado, até agora, o maior negócio da indústria da celulose do mundo. Afinal, será preciso não só esclarecer as responsabilidades, mas, principalmente, decidir quem vai pagar a conta, a Aracruz ou a VCP . Na esteira das perdas bilionárias com a exposição cambial, em apenas duas semanas as ações preferenciais da Aracruz despencaram 65% e as da Sadia, 52%. No caso da companhia catarinense, além da demissão do diretor financeiro, o presidente do Conselho de Administração, Walter Fontana Filho, também renunciou - o que permitiu o retorno ao cargo do ex-ministro Luiz Fernando Furlan.
Para tentar compreender quais são as lições que as empresas podem retirar do maior crash da história recente do capitalismo, AMANHÃ consultou professores e especialistas em gestão de risco. Em pelo menos uma questão, há unanimidade: para não ficarem expostas a riscos desnecessários, as companhias precisam aperfeiçoar - e muito - os instrumentos, internos e externos, de controle e prevenção. Conselhos de Administração que estabeleçam diretrizes claras para a ação dos executivos, maior transparência na hora de divulgar informações ao mercado e até mesmo o fim das decisões executadas são algumas dessas lições. "Por que a Sadia não revelou ao mercado o tipo de operação financeira que havia feito?", questiona Telmo Schoeler, diretor da Strategos, consultoria especializada em estratégia e gestão de empresas e também instrutor do Instituto Brasileiro de Gestão Corporativa (IBGC).
O mesmo tipo de questionamento é feito por muitos investidores e empresá¬rios. Afinal, por que as empresas se arriscaram tanto? Até que ponto elas estão suscetíveis a ser surpreendidas com as calças nas mãos diante de um solavanco econômico de grande envergadura? "Em geral, os executivos se preocupavam em saber quanto a companhia iria lucrar, mas não se questionavam sobre qual o tamanho do risco dessas operações com derivativos. Esse é o fato", observa Pérsio DeLuca, managing director da Protiviti Brasil, empresa de gerenci¬amento de risco. Nas páginas a seguir, apresentamos sete lições que podem ajudar as empresas a evitar que uma bomba-surpresa arruíne o negócio.

1 - Crises são inevitáveis. É preciso estar preparado para enfrentá-las

A primeira lição é que nenhum segmento econômico - industrial, comercial, de serviços, agropecuário ou mesmo financeiro - escapa às intempéries do mercado. "Qualquer evento afeta a todos. É preciso não esquecer que vivemos em um mundo globalizado, no qual os mercados são interdependentes", enfatiza Miguel Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). Embora pareça bastante óbvio, muitos executivos, diz Oliveira, não costumam pensar em crise ou dificuldades nos negócios, até que elas batam à porta da empresa. "Até o final de setembro ainda havia muita gente importante e gabaritada afirmando que a crise não desembarcaria por aqui de modo algum", recorda Fernando Manfio, sócio-diretor da Witrisk Inteligência em Gestão de Risco, consultoria paulista especializada em gestão de risco de crédito ao consumidor.
O que acontece com freqüência no mundo dos negócios é que as empresas não costumam se preparar para enfrentar cenários extremos - nem para os muitos bons, com grande crescimento da economia, nem para os ruins, como crises financeiras ou recessão econômica. "Em geral, costumamos ficar atentos e nos prevenir contra os sintomas da gripe, mas não contra um câncer. Como é mais raro, não pensamos muito no câncer, embora ele costume ser mortal. Por isso é importante fazer os check-ups", diz Paulo Baraldi, consultor da Risk at Risk e autor do livro Gerenciamento de Riscos - a Gestão de Oportunidades.

2 - As estruturas de governança corporativa devem estabelecer diretrizes claras - além de monitorar o seu cumprimento por parte da diretoria

A adoção de um modelo de governança corporativa com clara delimitação de funções e poderes entre executivos operacionais, diretoria e Conselho de Administração garante maior segurança às decisões. Um bom sistema de governança permite o constante questionamento de executivos, diretores e conselheiros, bem como o alerta em relação aos riscos envolvendo as diversas decisões. Além disso, uma estrutura de tomada de decisões hierarquizada facilita a implantação de mecanismos de checks and balances (checagens e balancea¬mento). "Alguém tem de questionar os executivos sobre as razões que os levaram a tomar certas decisões, acertadas ou não", afirma Pérsio DeLuca, da Protiviti Brasil. A coordenadora do Centro de Conhecimento do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Adriane Almeida, lembra os recentes casos da Sadia e da Aracruz. "É claro que tivemos uma alta inesperada do dólar, mas com um bom sistema de governança, o Conselho estipula os riscos que a empresa está disposta a correr e pode acompanhar as decisões tomadas", diz Adriane.
Mas não basta ter estruturas de governança corporativa - é preciso que elas funcionem. "Embora as decisões do dia-a-dia sejam responsabilidade dos executivos, é função dos Conselhos definir as diretrizes. E é justamente a falta de diretrizes claras que dá margem para erros e riscos descontrolados", afirma Oliveira, da Anefac.
Para garantir que todo o sistema de governança tenha eficiência é necessário eliminar possíveis conflitos de interesse entre conselheiros, diretores e demais executivos. A criação de comitês para estudar e sugerir diretrizes sobre temas específicos ajuda a diminuir os conflitos. Recomenda-se que esses comitês tenham de cinco a nove membros, de especialidades diferentes, mas é fundamental que todos tenham tempo disponível e uma agenda anual de trabalho. "A contratação de conselheiros profissionais - movimento que vem ganhando força - também é importante, uma vez que eles podem questionar os executivos sobre o real risco das decisões tomadas", diz DeLuca, da Protiviti Brasil.

3 - Adotar mecanismos internos de gerenciamento de riscos

Outra alternativa para evitar surpresas, especialmente na gestão da dívida e na administração do caixa, é a adoção de mecanismos internos de gerencia¬mento de risco - aí incluídos desde medidores de risco até índices preestabe¬lecidos para regular os níveis de alavancagem da companhia. Uma das ferramentas de enorme utilidade nesse campo atende pelo pomposo nome de enterprise risk management (ou geren¬ciador de riscos empresariais, em bom português). "Esse mecanismo ajuda o executivo a se policiar nas decisões de curto prazo", diz Persio DeLuca. Dessa forma, não seria preciso esperar as reuniões periódicas do Conselho - geralmente mensais - para saber se a decisão é acertada ou não, uma vez que o programa calcula o risco das escolhas.
O software trabalha em sintonia com o modelo de governança da companhia. Se uma decisão contiver um risco que vai além das atribuições de determinado nível hierárquico, será automaticamente submetida à deliberação da instância superior. "Se o programa identificar que determinada decisão de curto prazo excede a alçada de um diretor, ela será levada a um nível decisório superior e pode ser até mesmo motivo para a convocação de uma reunião extraordinária do Conselho de Administração", explica DeLuca.
A exemplo do que preconiza o Tratado da Basiléia em relação aos bancos, a definição de um teto para a alavancagem - o endividamento representado pelo montante de recursos de terceiros utilizado para financiar a operação - também pode ser bastante útil nas empresas. "Ter níveis pré-determinados de endividamen¬to evita que as companhias especulem com o valor em caixa para cumprir metas operacionais", analisa Francisco Barone, coordenador do Small Business da Ebape (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas) da Fundação Getúlio Vargas. Para determinar o nível de endividamento adequado, as empresas precisam levar em conta também os cenários extremos e as situações de "estresse" do mercado. "Não existe nível de alavancagem ideal. Varia de setor para setor. Cada empresa deve encontrar a combinação certa entre capital próprio e de terceiros, de forma a maximizar o retorno do acionista - mas sem expor o negócio a riscos desnecessários", afirma Barone.

4 - Decisões importantes não podem ficar concentradas nas mãos de poucos executivos

"Percebemos que muitas das decisões equivocadas de empresas ou mesmo bancos são resultados de deliberações tomadas por um ou dois executivos, sem a consulta dos demais", observa o vice-presidente da Anefac, Miguel Oliveira. Ele acredita que, devido ao cenário econômico favorável, alguns controles foram relegados a segundo plano, deixando as decisões nas mãos de poucos executivos de nível estratégico. "Uma coisa são decisões que envolvem riscos inerentes ao negócio, mas que são tomadas por várias pessoas. Outra, é um executivo adotar sozinho determinada postura", aponta Oliveira.
Documentar as deliberações - e deixá-las disponíveis em um portal de gover¬nança - pode ser de grande ajuda para o executivo tomar decisões que vão além de sua percepção individual - especialmente quando é difícil consultar seus pares. Em outras palavras, quando um gestor precisa solucionar um problema, ele consulta todas as decisões anteriores para ver que procedimentos foram adotados. Trata-se de uma forma de gerir o conhecimento interno. "Imagine uma reunião do Conselho com a diretoria e alguém propõe investir em opções de dólar. Os presentes avaliam todas as variáveis e riscos envolvidos. Se a decisão ficar documentada, ela pode servir de base para uma situação semelhante no futuro", ilustra DeLuca.

5 - Os conselheiros e executivos não deveriam ser remunerados pelo desempenho financeiro da companhia

Um dos aspectos que ganharam evidência durante a crise financeira diz respeito aos polpudos bônus recebidos pelos altos executivos - e que continuaram sendo pagos até no caso das companhias que foram à bancarrota. No caso mais rumo¬roso, o staff do falido Lehman Brother deveria receber cerca de US$ 2,5 bilhões em bônus, pagos pelo comprador, o inglês Barclays Bank. O próprio presidente do Lehman, Richard Fuld, disse ao Congresso americano que havia recebido US$ 300 milhões em salários e bônus nos últimos oito anos. Na maioria das instituições que enfrentaram dificuldades, os executivos e conselheiros rechearam os bolsos com os fabulosos lucros obtidos com as hipotecas do subprime e operações em derivativos.
"Não havia comprometimento com a gestão de longo prazo, porque eles estavam sendo remunerados pela perfor¬mance anual", explica Nilton Cano Martin, professor do MBA em Controles Internos da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi). Algo parecido já havia acontecido na crise das fraudes dos balanços da Enron e de outras companhias, no início da década, em que os bônus pelo bom desempenho financeiro levaram os executivos a maquiar os resultados das companhias. Por essa razão, vá¬rios especialistas passaram a defender a idéia de que os altos cargos não devem receber bônus adicionais pela performance financeira da empresa. "Quando se paga esse tipo de adicional, não se pensa na continuidade empresarial, apenas em resultados de curto prazo", opina Martin.

6 - Balanços transparentes e comunicação adequada com o mercado são fundamentais

Um dos cânones da transparência no mercado acionário é o balanço das companhias. Porém, justamente nesse ponto é que se encontra um dos maiores problemas apontados por especialistas. Muitas demonstrações financeiras, por exemplo, trazem notas explicativas que não fazem jus ao nome. Um estudo, feito pelos contabilistas catarinenses Leandro Luis Daros e José Alonso Borba, há cinco anos, revelou que entre as 20 maiores empresas brasileiras não-financeiras, a maioria omitia informações relacionadas às transações com derivativos. "Esse tipo de informação deveria estar claramente explicitada nas demonstrações contábeis divulgadas ao mercado", afirma Daros.
Outro problema é que, às vezes, nem as próprias auditorias entendem a complexidade das operações e acabam colocando apenas informações genéricas sobre elas. "Com certeza, as demonstrações financeiras deveriam ser bem mais transparentes também em relação às operações cambiais. Quem sabe até um quadro explicativo dizendo qual é o risco para cada nível de câmbio", sugere Adriane Almeida, do IBGC. Para DeLuca, não basta só escrever no balanço que o nível de endivi¬damento da empresa está compatível com a média do setor. "O calcanhar de Aquiles é que não há parâmetros para dizer com precisão qual seria o índice mais adequado", afirma DeLuca.
Para outros consultores, no entanto, não adianta criar muita burocracia. "Não é a informação do balanço trimestral que vai evitar uma crise. Não foi a falta de comunicação ao mercado, mas a ausência de regras claras que levou muitas empresas a enfrentar problemas", aponta Miguel Oliveira, da Anefac. Com as mudanças na Lei das SAs - que prevê auditorias e balanços de acordo com as normas do Inter¬¬- national Financial Re¬porting Standards (IFRS) -, a expectativa é de que ocorram avanços no sentido da transparência diante do mercado.

7 - Foco no core business e conservadorismo nas operações financeiras que envolvam riscos

oco no core business é a palavra de ordem que emerge desta crise. Isso significa adotar uma postura conservadora e não tentar ganhar dinheiro com operações (financeiras ou não) estranhas ao próprio negócio. Em geral, quando empresas operam fora do mercado em que deveriam atuar criam-se desequilíbrios. Claro que todas as empresas podem - e até devem - utilizar os recursos em tesouraria para rea¬lizar operações de hedge cambial, especialmente no caso das exportadoras. "O que aconteceu dessa vez é que se passou do limite. Querendo aproveitar o momento, algumas empresas foram muito além do recomendável", critica Alex Agostini, economista da Austin Rating.
Na opinião de Leandro Daros, os instrumentos derivativos deveriam ser utilizados apenas para prevenção contra even¬tuais variações cambiais. O problema é quando empresas industriais decidem especular com esses instrumentos em mercados desconhecidos e que envolvem grandes riscos - e sobre os quais a empresa não tem ne¬nhum controle. A mesma opinião é compartilhada por Roberto Lamb, professor de Finanças da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "A maior lição de toda essa crise é que uma empresa não pode especular com o caixa, pois a tesouraria não é um centro de lucros", enfatiza.